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19:42 - 17/10/2023
ULTIMA ATUALIZAÇÃO::

Bendego.com

Um dia com Érica Ferrari e Thomaz Rosa (com participação de Janina McQuoid)

 

(para melhor audição das peças sonoras, use fone de ouvido)

Segunda-feira, dia chuvoso. Saímos Érica, Thomaz e bendego.com pelo centro de SP. Pedimos aos artistas que nos levassem em algum lugar de sua escolha, não importando qual fosse a distância ou o uso desse espaço. Nos encontramos todos na Galeria Metrópole, almoço no Alecrim, conversas iniciais e bucho cheio. Descobrimos que Thomaz não tinha voltado pra casa desde sexta-feira e que Érica era adepta do moicano no final dos anos 1990 – mesma época que Thomaz iniciava a sua alfabetização. Rumamos em direção ao Pivô, seguem junto os guarda-chuvas, o chocolate, a pneumonia, os casacos e os sapatos molhados. Enquanto atravessamos a faixa de pedestres da Avenida São Luís, recordamos do macabro 1° de agosto que havia sido marcado pela morte de três artistas brasileiros: Antonio Dias, Eleonore Koch e Mario Cravo Jr. A chuva parecia mais fria. Comentamos de alguns urubus que rondam artistas prestes a morrer.

No Pivô, Érica e Thomaz nos mostram algumas peças que estavam desenvolvendo juntos. O ateliê aberto ia acontecer dali a 5 dias e eles estavam pensando em como exibi-las no espaço.

 

 

Érica comprou uma placa belíssima pelo site Mercado Livre e perguntou pra Thomaz se ele não queria pensar junto em algo, ainda estavam decidindo “Será que fica boa assim abaulada?” “Já tem uns furos nela! Podemos aproveitar.” “Ela tem esse corpão e agora estamos fazendo uns “corpinhos” pra pendurar nela”, Érica nos mostra alguns objetos. Desde então, eles têm trabalhado no esquema: um apresenta um material, o outro interfere, volta e o outro acrescenta ou exclui algo, e assim sucessivamente…

 

 

Desde o início de junho, quando começamos a visitar Érica no Pivô, notamos que seu ateliê não para de crescer. Materiais de construção se misturam aos objetos que ela vem construindo, pedaços de madeira, pedregulhos, estruturas de ferro e tubos de cola. As maquetes que ela tinha feito de algumas de suas peças – sempre namoradas por todos que passam por ali – se agigantaram em impressões fotográficas que agora dividem as paredes com outros trabalhos maiores e com pequenas imagens de referência. Começou a ficar difícil distinguir onde começa um trabalho e termina o outro, estamos cercados por todos os lados. O ateliê é espaço de trabalho, mas também de exposição: se a quantidade de objetos aumenta, a área de trabalho diminui e a escala das obras é alterada – podem se agigantar cada vez mais e dominar cada centímetro quadrado até expelir o artista do seu próprio espaço ou se tornarem minúsculas e se perderem para sempre nos rejuntes do piso.

 

Em 2011 Thomaz trabalhou como assistente de Érica, mas só agora em 2018 eles começaram a desenvolver trabalhos em colaboração. No Pivô seus ateliês são divididos apenas por uma parede.

Antes de sair pro serralheiro, demos uma passada no ateliê de Thomaz. Ele nos mostra as últimas pinturas que tem feito e fala um pouco das que gostaria de fazer. Parece preocupado que sua pintura possa parecer “meio maneirista” por conta do trato que dá a algumas delas.

 

 

 

Repletas de pinceladinhas que às vezes lembram um aglomerado de gotas de tinta, às vezes de pixels, às vezes a textura de um piso de granito ou de uma quadra de tênis, às vezes de um chuviscado de TV. “Vem ver aqui de longe como ela fica mais bonita”. A maior de todas ele pendurou na parede do corredor, um quadro branco meio surrado onde surgem alguns rabiscos ou pequenas anotações em forma de quadradinhos coloridos ou de pequenas imagens que lembram stickers ou as sujeiras do chão do ateliê.

 

 

“Mas ainda tô fazendo… uma hora venho aqui e coloco uma coisa, depois outra…” Logo abre seu caderninho de projetos – que aliás, tem um aspecto menos “desordenado”, mais esquemático, muito diferente dessa pintura que bem poderia ser uma grande página de caderno ou diário – e nos mostra como seria a sua próxima tela. É um esquema de quadrados coloridos que lembra um tabuleiro de xadrez ou um mapa de batalha naval, com uma borda branca e sobre ela as indicações dos quadrantes “A, B, C…” Um jogo de paciência e estratégia, nada muito diferente do que exigem de Thomaz suas próprias pinturas, mui detalhistas e, poderíamos dizer, bem mais vertiginosas que maneiristas.

 

 

O ateliê de Thomaz, além de ser o primeiro depois da entrada, ocupa o próprio corredor – ele gosta de usar as quinas das colunas e pensar que as telas também se relacionam tridimensionalmente. Era normal sermos interrompidos para cumprimentar os outros residentes que passavam a todo momento “Oi, tudo bem? smack smack”

Roupas trocadas. Próxima parada: serralheiro. Érica leva umas peças que ficaram fora de esquadro. Jogo rápido. Brinca com o encarregado se o serralheiro que executou as peças era novo de casa.

 

 

Descemos a rua que passa por baixo do minhocão sob muita chuva. Próxima parada: Fruto de Arte. Thomaz precisava de tinta branca e pasta para modelagem. Materiais em mãos e frio no lombo.

 

 

 

“Gente, esse livro aqui – Érica aponta para um de Pop Art com capa da Marilyn editado pela Taschen – esse aqui foi a minha primeira aquisição com o meu próprio salário!” Thomaz aproveita e desabafa “O primeiro livro de arte que eu comprei com meu salário chegou na casa da Érica. Era o Painting Today.” E fala um pouco mais da sua relação com livros de arte de banca de revista, livros que ensinam a pintar e a desenhar e da coleção que sua mãe formou de suas primeiras pinturas. Já Érica reflete sobre o seu pensamento tridimensional.

No retorno para o Pivô, Érica decide passar pela loja de materiais de construção: saco de areia, lixa, tinta. Saco pesado. Descobrimos que agora estão fabricando chuveiros com iluminação e sistema de som acoplados. Rádio FM. Pelos quatro cantos da loja soa um sertanejo do chuveiro: “Henrique & Juliano – Mais amor e menos drama”. Érica pondera “Será que vale a pena? 321 reais!” Thomaz indignado com a ineficiência dos guarda-chuvas exclama: “O chuveiro todo multifuncional. Enquanto isso, o guarda-chuva…”

 

https://soundcloud.com/user-782410671/guarda-chuva-chuveiro

 

 

 

 

 

Pelas especificidades da produção de Érica, muitas vezes, os materiais e negociações passam por fornecedores de outra ordem – não apenas do campo da arte: pedra, cimento, serralheiro. Ficamos pensando em como esses lugares e relações também são importantes para que surjam ideias ou soluções para os trabalhos dela.
Thomaz comenta que para ele é diferente, não costuma sair tanto para ir atrás de materiais em tantos lugares, e que as coisas costumam acontecer mais dentro do próprio ateliê, dele ou dos artistas para os quais trabalha: lendo, ouvindo música, vendo ou tendo que lidar com técnicas ou materiais distintos.

 

Retornamos ao Pivô com todos os materiais. Juntos mais uma vez pelo caminho: chuva, dor nas costas, gravador, tosses, conversas.

Janina chutando o vento pelos corredores do Copan nos avista pela vitrine do café: “Oi gente, que bom que eu encontrei vocês!” Janina anda manca nos últimos tempos. Tentou certo dia saltar por entre os carros e ferrou o joelho já não muito sadio. Daí o chutar o vento pelos corredores. Café, brigadeiro, beijinho, outros beijinhos, pão com ovo, kibe e coxinha de jaca. Conversas sobre o carro roubado, Cruz Vermelha, bebidas, exames médicos, Philip Guston, Peter Saul, rendimentos da Poupança, mudança de nome – Mc Jan, Ferrari e Schumacher, Thomaz Rosa ou Rosa Thomaz?, Jean Arp e Hans Arp, Sonia e Robert Delaunay -, leite condensado, salões de arte, empreendimentos imobiliários, editais.

 

Na mesa do ateliê de Thomaz achamos a “Enciclopédia do mau gosto”, um livro editado por dois autores americanos de 1990. Foi Janina que emprestou pra Thomaz. Decidimos pegar pra dar uma olhada juntos. Percebemos que muitas das coisas consideradas de mau gosto que estavam na moda naquela época, estavam novamente na moda nos dias de hoje ou estavam sendo usadas pelos artistas em seus trabalhos.

 

Cerveja artesanal, halterofilismo, smiles, roupas bufantes, peitos enormes, sorveterias gourmet, limousine, chiuauas – comentamos sobre a moda dos cachorros “Onde estãos os Huskies siberianos?” “Hoje em dia só vemos os cachorros ‘galgos’, ‘whippets’ e aquelas bicicletas de aro fino ‘Caloi 10’. Não se parecem?” – , macramê, gravatas estampadas, lava light, Las Vegas – Janina nos conta que foi a Las Vegas quando criança, aos 10 anos “Tinha os lugares para os adultos e lugares iguais aos dos adultos, só que para crianças. Ao invés de ganhar dinheiro, você ganhava fichas que valiam brinquedos” – roupas de ginástica, motor home, shorts curtos de cintura alta – “Gente!! Yuli tem uma calça com essa mesma marca “Chic”. Tirei ontem uma foto dela subindo a escada. Uau! Que chic!”- , poodles, roupinhas para cachorros, pimenteiros gigantes – Isso é super Tunga! -, anel do humor, disco music. “Já fizeram um livro desse dos anos 2000?” “Tem várias ideias aqui!”

 

– O que seria isso? Forest Lawn Cemetery?
– Não sei… cemitério de jardim? Será?
– Ou aquelas coisas esquisitas que você põe em lápide?
– Ou a pessoa que rouba coisas no cemitério?

– Ahhh não, é outra coisa! Olha que loucura… Tem um lugar que chama Forest Lawn… é um parque… aí o dono do parque, ele procurou o mundo inteiro para achar a imagem de Jesus sorrindo para o cemitério dele. Ele ofereceu um milhão de libras para qualquer artista que pudesse pintar o salvador com um sorriso. E tudo que ele conseguiu foi….. É… umas expressões meio adoentadas. Isso não era bom o bastante pra ele, que tinha uma visão em que ele… Na visão dele, ele viu um cemitério ensolarado…. Tá… eu não sei se vale a pena continuar….
– É maravilhosa essa história! Ele teve uma visão? Ele teve uma visão de um Jesus Cristo sorridente?
– Foi, foi… E se realizou nessa pintura aqui, aqui ele tá sorrindo.
– Hmmmm
– Não tô vendo não…
– Nem eu…
– Ele não tá sorrindo aí
– Talvez não esteja sorrindo o bastante
– Outras atrações desse lugar: a coleção de réplicas de cada moeda mencionada na Bíblia
– Era um colecionador?
– Ah! É um museu!
– É, um museu! Um mosaico de trinta pés de não-sei-o-quê da independência…
– Ó, ele importou patos e pássaros cantadores e construiu fontes… Eu acho que ele construiu um cemitério! Será que não é isso?
– E aqui diz que ele conseguiu uma versão do Davi de Michelangelo, só que sem o pênis. Aí, olha que coisa engraçada, eles fazem referência também a outra parte do livro: veja também Liberace.
– Ahhhh
– Eles são mais ou menos do mesmo nicho, sei lá!

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