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19:47 - 17/10/2023
ULTIMA ATUALIZAÇÃO::

Morrer para nascer ou Capitú contemporânea

Os artistas Cibelle Cavalli Bastos e Guilherme Ginane realizaram residência no programa Pivô Pesquisa entre 2015 e 2016. Com práticas bastante diferentes, os dois artistas conviveram no espaço e estabeleceram interlocução sobre seus trabalhos. Apesar de cada artista possuir seu próprio ateliê, o terceiro andar do Pivô, onde acontecem as residências, é um grande espaço aberto, propiciando esse tipo de troca entre os artistas. Abaixo, um texto que Guilherme escreveu sobre a transição das obras de Cibelle, desde os meses de produção no ateliê do Pivô até o espaço expositivo da galeria Mendes Wood DM, onde a exposição “Mil maneiras de matar um monstro” está em cartaz.

 

Morrer para nascer ou Capitú contemporânea.

 

Cibelle nos dá o caminho para encontrar armas para matarmos os monstros que habitam os lugares mais recônditos de nossa alma. Tudo é forçosamente revisado, revisto. Até as armas, que no nosso imaginário são coisas dolorosas, catastróficas, ela reverte, transpondo a dor intrínseca das armas em vida.

Tudo na exposição “Mil maneiras de matar um monstro”, que ela apresenta na galeria Mendes Wood DM, possui camadas de significações. Pode-se avançar ou ficar só no primeiro impacto, de rosas e matérias fortes que ficam entre o chocante e o «fofinho». Nada é excludente.

Eu, que convivi com a Cibelle no momento de sua produção para essa exposição, pude acompanhar a força intelectual empenhada por ela para dar corpo ao que está sendo mostrado, ou melhor – para fazer um jogo de palavras -, revirar o corpo contemporâneo e seus conceitos. Para mim, particularmente, o ponto alto são as roupas com látex. Como disse no início, as camadas de significados vão se sobrepondo e basta nos deixarmos levar. Vamos ao Louvre e vemos a carcaça de boi de Rembrandt, de 1965. De lá, vamos para o Rio Machadiano, relembrando a força de Capitú e sua liberdade frente ao empoderamento de Bentinho. Mas a vontade de Cibelle vai, claramente, além das semelhanças com as formas sugeridas pelo passado, e sem conflitos somos levados para a São Paulo atual, onde nos é sugerido os corpos maltratados das travestis das ruas do Centro. E como não há exclusão e sim enfrentamento, somos convidados a visitar os burgueses à procura de uma mulher objeto para a satisfação de suas volúpias e frustrações. Ela escancara o corpo e mostra que não há – nem em um, nem no outro – diferenças, seja nos prazeres, nas perversões ou nos medos.

Lá a roupa é a pele, o sentimento e a sexualidade. Somos como que apresentados novamente ao mundo. Uma espécie de renascimento, que fica ainda mais explícito pelo cheiro do látex. Não podemos esquecer que é com essa fina camada que temos o primeiro contato com o mundo – nas luvas que protegem as mãos dos médicos que nos retira da barriga de nossas mães. Essa  proteção «via látex», se estende por toda a vida, ao contato com o interior de corpos alheios, com o uso de preservativos, luvas cirúrgicas ou de manipulação.

A briga para achar essas formas não foram só intelectuais, eu repito, pude presenciar a luta de Cibelle, testando os materiais, horas e horas de trabalho árduo para chegar ao resultado que esperava. As cerâmicas que foram surgindo vinham para dar uma certa tranquilidade a cabeça inquietante da artista, a saída do atelier até poderia ser um alívio, mas logo as fotos no Instagram mostravam que lá estava o monstro que Cibelle perseguia ou vice e versa. Mas, de fato, a saída era algo importante, parece que ela emprega uma outra espécie de tratamento com os materiais, como se Cibelle fosse tratar das partes mais frágeis do corpo caduco, coisas que por sua delicadeza seriam engolidas pelas «vísceras» do atelier. Fragmentos de rostos, relações de cores mais cuidadosas aparecem, e até a maneira que esses trabalhos foram dispostos no espaço expositivo tentava mostrar que nós temos partes mais frágeis à outras para serem cuidadas.

O espelho que foi colocado na entrada da sala de exposição, ao meu ver, também teve um outro caráter. Construído na própria galeria, ele se isola da força sensível do atelier e traz um elemento quase terapêutico para exposição. O tom interrogativo se evidencia. Os monstros do título da exposição passam a ser nós, e é a nós que temos que matar, matar com amor, matar para nascer, viver uma vida que seja livre do lado escuro da alma, paradoxalmente, trazendo para essa interlocução o monstro, que mesmo morto, sempre habitará em nós.

 

Guilherme Ginane

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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