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19:49 - 17/10/2023
ULTIMA ATUALIZAÇÃO::

PIVÔ ENTREVISTA FREDERICO FILIPPI

Pivô: O espaço do Pivô, localizado dentro do edifício Copan, tem uma carga arquitetônica e simbólica muito evidentes; é o oposto do típico cubo branco. No entanto, você optou por não se relacionar diretamente com o tema da arquitetura. Gostaria que você discorresse um pouco sobre como imagina o tema da Babilônia – tanto na definição bíblica quanto no jargão popular que usa essa palavra para descrever cidades caóticas – em relação a esse contexto específico do centro de São Paulo.

Frederico Filippi: Com relação à importância arquitetônica que o edifício tem, não me sinto impelido a entrar num embate com ele porque não é meu assunto. Já a carga simbólica me interessa porque o modernismo representa o projeto de um apogeu civilizatório que eu acho que já não é uma unanimidade e que, para mim, não faz mais tanto sentido.

A meu ver, a Babilônia é o método moderno, o modo de vida moderno. E apesar de sua acepção histórica e religiosa muito carregadas, hoje ela virou um símbolo-gíria rastafári, que eu gosto muito. Também está no rap, e é muito útil pra identificar esse alvo.

A Babilônia pode ser a cidade, mas é também o sentimento mais amplo e as suas consequências. Pode ser o gás, o tempo acelerado, o agrotóxico, a violência, a celebridade, o hormônio na carne, a seca, as pessoas ruins, o dinheiro… aquela miríade de inimigos impossível de absorver. E babilônia é uma palavra aveludada, pueril, ela tira a nossa culpa e ajuda a divagar.

Tira a nossa culpa porque é mais esfumaçada, porque, no fundo, nós é que a constituímos. É mais espiritual que dizer sistema. Ela é vilã, mas também é cheia de atrativos. É um terreno dúbio.

Pivô: Embora os trabalhos não espelhem isso de maneira óbvia, muito da atmosfera da exposição vem da ideia de monumento como marco comemorativo que se ergue verticalmente e que, portanto, já contém em si também a ideia de queda. É algo que você vem desenvolvendo desde sua participação na Bolsa Pampulha em 2014, quando construiu um “monumento ao contrário” que adentrava o solo. Você disse que, ao chegar ao MAP, foi direto para o terreno de fora. Poderia comentar um pouco sobre isso?

FF: Eu fico pensando porque fazemos monumentos, ou menires, ou qualquer construção simbólica. Depois de muito tempo na horizontal, espalhando-se e ocupando a terra, divagando em deslocamentos, de repente alguém conclui que é hora de fixar, praticar o vertical. Só depois de muito horizontal é que vem o vertical. Babel é um símbolo arquetípico dessa ideia.

E o próprio modernismo, as vanguardas, são também essa propulsão vertical afirmativa e incorporadora até as últimas consequências. O futurismo, o suprematismo, são fontes de inspiração pra mim porque eu os acho momentos muito implosivos.

No Museu da Pampulha, grande parte dos trabalhos que eu tinha visto das outras edições da Bolsa se relacionava com a arquitetura ou a história do edifício. Eu queria evitar esses embates e via mais possibilidades no terreno do que será um dia o anexo do museu, do outro lado da rua. Existia ali uma liberdade que o MAP não proporcionaria dentro do museu.

Eu queria falar de mineração, dessas montanhas invertidas que existem em Minas Gerais, você as vê do avião, uns buracos gigantes de escavação de minérios. Eu pensava: um carro é um pedaço de montanha, uma casa é um pedaço de montanha, portanto, a construção da nação também consome um recurso que não se vê de onde vem e que provoca essa contra forma vazia. Ali era o lugar ideal pra pensar nisso.

PivôVocê também tem formação em aviação e, ao falar da ideia dessa exposição, comentou sobre o termo “estol”, ou seja, quando o avião sobe tanto que não consegue sustentar seu trajeto. Você poderia falar mais sobre a analogia e a importância dessa outra formação na sua prática artística como um todo?

FF: Foi a primeira coisa que eu estudei depois da escola. O bom da aviação é que tem muitas metáforas, é uma maneira de ver as coisas dentro de uma dinâmica física. O estol é uma delas. É simplesmente quando um avião tenta subir num ângulo maior do que consegue sustentar. Chega um momento em que ele sufoca: sobe, sobe, sobe, até que não pode mais e começa a descer e involuntariamente abaixa o nariz. De uma certa forma, foi a mesma coisa com a Babel, foi um subir até que uma força invisível – Deus ou a gravidade – mandasse descer.

PivôApesar da exposição “Fogo na Babilônia” partir essencialmente da ideia de colapso da civilização atual, de ruína, você diz que não é uma abordagem negativa dos processos civilizatórios. Por que não?

FF: Na minha cabeça, existe um pouco de humor – pode ser um humor negro, mas essa ideia de escatologia, de fim de mundo, está presente desde sempre na humanidade. A repetição dessa mesma ideia e a presença constante desse imaginário é interessante, apesar de a realidade ter dados assustadores.

Diante desse cenário, que eu acredito ser limite no que diz respeito ao modo como vivemos e consumimos o mundo, eu produzo um ruído.

Um rumor dúbio do que está por vir, de uma incerteza que eu estou sondando. Não são trabalhos coloridos, claro, mas eu estou tateando uma outra possibilidade pra mim.

PivôEm uma das obras dessa exposição, a colagem “Vaca vulcão” (2014), você junta duas imagens a partir de uma relação de encaixe, mais pela forma do que pela similaridade de assuntos. Em seu trabalho, você costuma partir de um projeto pré-estabelecido ou ele surge mais da prática no ateliê, com mais espaço para assimilação de imprevistos?

FF: Acaba sendo um pouco imprevisível, e acho que os melhores trabalhos surgem desse fazer que muitas vezes não é controlável. Eu não tenho o domínio. Começo e não vejo exatamente onde terminarei. Abro muito espaço para insurgências, isso toma mais tempo e produz um trabalho mais disperso.

Nos últimos três anos, o processo de residências me influenciou muito nesse sentido. Você não tem exatamente um ateliê, seu anteprojeto cai por terra quando você chega aos lugares. Você se desloca e ali tem a chance de arriscar algo diferente. Você se coloca em um beco e tenta sair.

Por mais que exista um plano, sempre espirra.

PivôSobre o vídeo que você apresenta na exposição “Fogo na Babilônia”, cujo projeto você vem desenvolvendo há alguns anos, qual é a importância do percurso que esse trabalho fez? Pois o som foi captado no Pantanal, depois projetado nas ruas de São Paulo durante a filmagem e acabou formalizado nesta exposição.

FF: Esse foi um trabalho com pré-projeto. As pessoas mais próximas já tinham ouvido falar dessa ideia, mas eu nunca tinha tido a oportunidade de concretizá-la. O projeto existe desde 2011, quando gravei o som em Aquidauana. Fui estudando e imaginando, até que surgiu esta possibilidade.

O trabalho faz referência aos intonarumori do Luigi Russolo, um artista futurista italiano. Eu quis articular essa tensão entre a ambição de progresso desse movimento e a ideia de dois universos que são unos economicamente, mas que se opõem como premissa. Os sons dos bois flutuam numa cidade recolhida estabelecendo um diálogo incômodo.

PivôPodemos verificar em algumas de suas obras aspectos da antropologia estrutural, como, por exemplo, no vídeo “Asdlfkjawea [Apapaatai]” (2014). Como você incorpora a antropologia em seu trabalho? Como uma chave de pensamento analítico ou como fonte direta para suas obras?

FF: O interesse surgiu quando comecei a me perguntar sobre outros modos de vida, e conheci a etnografia e os relatos dos viajantes. Depois fui estudar formalmente na tentativa de encontrar uma conexão entre um universo de pesquisa e meu trabalho.

A disciplina em si é muito complexa e ainda conheço pouco para estabelecer um paralelo categórico, portanto, eu a uso como fonte de informação. Muitas referências surgem daí, principalmente a respeito de costumes e formas de pensamento de outros povos. É um contrapeso interessante que me fez repensar e comparar muitas coisas, e entender o mundo como múltiplos.

Acho que eu poderia dizer que é mais uma chave de pensamento do que um objetivo, pois meu trabalho ainda não é organizado especificamente nesse sentido. Acho que é melhor existir uma liberdade de interpretação, mas muitas ideias surgem das leituras e dos desenhos que eu rabisco durante as aulas.

 

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