PT | EN |
MENU
FILTROS
MENU
PT | EN
Blog
19:49 - 17/10/2023
ULTIMA ATUALIZAÇÃO::

Pivô entrevista Paloma Bosquê

Pivô: Gostaria de começar a entrevista perguntando sobre a sua relação com a materialidade. O ponto de partida dos seus trabalhos parece ser sempre a investigação das possibilidades de uso e manuseio de materiais distintos, como se dá esse processo?

Paloma Bosquê: Quase sempre. De fato o gatilho de quase todos os processos de investigação que eu desenvolvi até agora está no embate entre corpos. Seja durante o processo de trabalho, entre o meu corpo e o material, entre os diferentes materiais que compõem um trabalho, ou ainda entre um trabalho e o espaço. A materialidade é maneira de estar no mundo de cada coisa. É como elas se apresentam, ou como suas estruturas internas se organizam pra se fazerem presentes. Eu sempre me interesso pelas relações entre os corpos, seus limites e o comportamento que apresentam diante dos diferentes estímulos, coisas assim…

Pivô: Para o projeto “O Incômodo” você escolheu lidar com materiais que geralmente são associados a outros em seu uso corriqueiro. O breu é usado como um tipo de cola ou para alinhar arcos de violinos, enquanto o chumbo é usado na fabricação de baterias e como proteção contra radiação, por exemplo. No projeto você os utiliza em sua forma pura, investigando sua materialidade, peso, textura e também como podem ser associados. O que te atrai nesses materiais tidos como ordinários e de transição?

PB: Não só no caso desses dois especificamente, mas na maioria das escolhas que faço diariamente, a atração e escolha de possíveis materiais para trabalhar vem de uma experiência tátil/sensorial.

No caso do breu a maleabilidade, ductilidade, translucidez, cheiro.

O lençol de chumbo estou usando pela primeira vez e o que me chamou atenção foi a contradição aparente entre a densidade e a maleabilidade.

Pensei que os dois formariam uma boa dupla de oposição e ainda assim guardam certas semelhanças, como o fato de normalmente serem considerados “inúteis” em sua forma original.

Pivô: Ao escrever sobre o trabalho, várias vezes pensei em descrever como o breu “reage” ao chumbo ou ao latão, talvez por conta de um vício de linguagem. Pensando sobre o comportamento e lendo sobre o arranjo atômico do breu, me parece que o uso da palavra “acomodação” é mais adequado para descrever o que ocorre nesse caso. O breu se acomoda aos demais materiais. Falamos da relação física entre os materiais mas acredito que haja também uma relação poética, você concorda com essa ideia?

PB: A principal força atuante é a gravidade, muito antes de um embate entre materiais. É uma constante. As relações, físicas e poéticas não são só entre os materiais mas neles mesmo.

Me chamou a atenção – e acho que essa foi a primeira vontade de realizar esse projeto – o fato de um material aparentemente sólido seguir se transformando indefinidamente. É uma maneira silenciosa e sedutora de não aceitar uma conformação. É como se ele fosse muitos ao mesmo tempo, pudesse ter todas as formas e não se fixar em nenhuma.

Por outro lado ele também é praticamente intransportável ,por ser extremamente quebradiço, então não pode ser transformado em objeto e ser consumido, ele é só uma espécie de presença mutante.

Pivô: Os trabalhos expostos propõem não só uma experiência espacial mas temporal. O movimento sutil dos blocos de breu só se revela com o tempo, e para ser observado em sua máxima potência o projeto depende de visitas constantes ou da qualidade do registro do processo, o que é posterior a experiência física. Gostaria que você descrevesse um pouco como você pensou esse projeto em sua duração.

PB: Pra ser compreendido em sua máxima potência o trabalho depende de intimidade, constância ou da percepção de que nada ali é permanente.

Todo trabalho requer uma certa intimidade e isso se dá no tempo. Sob esse ponto de vista a duração do trabalho é normal, mas isso não descarta a possibilidade de uma impressão instantânea e única que também é válida.

Mesmo uma pintura, pra citar um exemplo “estático”, você pode olhar uma vez na vida ou passar a vida inteira olhando pra ela, tenho certeza que ela também vai se transformar, muito embora não se mova.

O que muda no caso desse projeto é a expectativa quanto à impossibilidade de uma forma final, ou o fato de saber que se está sempre olhando pra uma forma transitória. As vezes parece que a duração – os quatro meses da exposição – existe pra que as esculturas finalmente cheguem à um ponto final, a coisa é que esse ponto não existe.

Pivô: Esse projeto foi bastante planejado, você realizou maquetes, fez testes diversos e desenvolveu métodos específicos para executa-lo. A ironia é que apesar de tudo isso é impossível prever o comportamento do breu durante o período expositivo. Como você se relaciona com essa incerteza ?

PB: A preparação seria a mesma se eu soubesse o resultado final das esculturas, porque toda instalação requer esse tipo de estudo, acho que pela escala e pelo caráter de ocupação espacial talvez.

Sobre a incerteza não está no comportamento do material, tenho estudado é possível prever bastante até. Calcular um pouco. Mas a soma dos fatores é que é determinante e isso não dá pra saber ao certo, não é só o peso, a maleabilidade ou a resistência. É também a temperatura do ambiente, a vibração das estruturas onde as esculturas estão escoradas, enfim, um monte de variáveis ambientais mais ou menos incontroláveis. Eu estou curiosa pra saber como os blocos reagirão as acho que o resultado é menos dramático do que pode parecer falando assim, é só uma acomodação. Mas de qualquer maneira, é muito legal ter a liberdade de experimentar as coisas assim e acho que nesse sentido o formato desse programa é ideal.

Pivô: Na sinopse do projeto mencionamos a batalha inglória que é tentar impor uma certa geometria a um material amorfo e em transição constante. Esse tipo de geometria imprecisa é recorrente em seu trabalho, assim como trabalhos que se desenvolvem no limiar da frustração, como os esquadros reutilizados da série Ritmo para Dois ou o Projeto Cegueira. Gostaria que você falasse um pouco como vê essas questões refletidas nesse novo projeto.

PB: No geral tenho notado que minha prática parte de um esforço meio absurdo de dar forma às coisas e desse esforço geralmente surge um embate material interessante, são dois vetores distintos combinados – uma vontade de forma e um embate com a matéria. Como na série “Repetições”, na tentativa de dar uma forma geométrica pra folha de ouro colada sobre uma superfície irregular de cera. O resultado é que essa folha, que a princípio estava ali pra marcar um espaço geométrico acaba servindo pra revelar o relevo da cera embaixo dela, revelando essa “geometria imprecisa” a que você se refere. Acho que é a forma que é possível dentro de uma determinada realidade material, sem impor muito mais a ela do que ela pode te dar.

No caso desse projeto, acho que ele parte de uma forma “imposta” pela fundição do breu em fôrmas ortogonais e essa forma vai se revelando uma mentira, vai se desfazendo com o tempo.

Como se o material fosse encontrando uma certa forma ideal própria.

E o trabalho fosse justamente esse processo de readequação da forma.

Pivô: Outra constante no seu trabalho é a opção por materiais moles, flexíveis, nesse caso até o metal escolhido é maleável. É inevitável pensar na oposição desses materiais e a arquitetura moderna, marcada pelo ideal de progresso e pela rigidez das estruturas de concreto. Como você vê esse diálogo entre as estruturas instáveis que você propõe e o espaço no Copan?

PB: Não é simples ocupar os espaços do Pivô, não só pelo fato de ele ser um espaço residual dentro do edifício mas pela própria característica da construção cheia de curvas e rampas.

A falta de ângulos retos num espaço me causa um incômodo enorme, pelo fato de que as paredes parecem te expelir para o centro. Sempre entendi os cantos de um cômodo como um dado de conforto, um ponto de fuga literal, um refugio mesmo. Acho autoritário um cômodo sem cantos é como se o espaço te jogasse constantemente pro centro e assim pra ação ou pro foco de atenção. A arquitetura moderna tem muito de um vetor positivo, progressista, impositivo.

Esse trabalho é o oposto disso, ele é composto de esculturas imprecisas, que de cara já revelam uma incapacidade de se conformar. São materiais moles e praticamente inúteis na forma que estão.

0
    0
    Carrinho de Compras
    Seu Carrinho está vazioVoltar à Loja