Satélite #7
Cada trabalho exibido nessa trama opera como um nó em uma rede dinâmica de relações, ativando poéticas e políticas que se entrelaçam como em um jogo de cama de gato, em referência ao texto de abertura de Donna Haraway em Ficar com o problema1. Nesse jogo, articulado formalmente pela diagramação da plataforma Satélite, por sua expografia e pela lógica de programação, soltar os fios, reconhecer padrões e falhar são gestos tão significativos quanto conectar, recombinar e sustentar vínculos inesperados. A cama de gato como pressuposto metodológico reflete também o desejo de relacionar, de forma criativa, a base material desta edição: o intercâmbio entre os acervos de duas instituições de grande relevância para a criação e circulação da arte contemporânea no Sul Global: o Pivô e a Kadist.
Por meio de diferentes registros e estratégias formais, os trabalhos que compõem essa trama articulam eixos como: a retomada de territórios saqueados pelas forças coloniais; as relações imbricadas com o mundo natural e com a água; a hibridização entre ficção científica, documentário e filme-ensaio; os vínculos fraternais como formas de investigação macrossocial; a musicalidade; e a evocação de sensibilidades que vão além da visão e da audição, ativando um corpo háptico por meio da experimentação com a forma fílmica em sua dimensão multissensorial.
São filmes de seis países (Brasil, Uruguai, Argentina, Irã, Palestina e China), que situam a curadoria em três regiões do globo, América Latina, Ásia e Oriente Médio, e contribuem para compor um emaranhado de vozes marcadas tanto pela diversidade de linguagens e códigos formais quanto pelas condições políticas em que foram realizadas. Assinados por cinco artistas mulheres e quatro homens, os trabalhos reforçam o compromisso do programa com perspectivas descentralizadas, em que as especificidades não são apagadas em nome de uma suposta universalidade, mas afirmadas como forças críticas em constante deslocamento.
O jogo proposto aqui não busca esgotar os múltiplos ângulos de leitura de um objeto político homogêneo, nem instrumentalizar a diferença, mas abrir uma zona de contato onde ressonâncias e afinidades — assim como fraturas e contrastes —, dispostas no emaranhado de fios dessa cama de gato, possam coexistir de forma não hierárquica. Nesse contexto, o gesto curatorial opera menos como aparato interpretativo e mais como instância relacional, ativando experiências em que as obras se tornam companheiras de pensamento, de corpo, de espaço e de tempo.
A proposição da cama de gato, conforme desenvolvida por Haraway, pode ser expandida quando pensamos a curadoria como metodologia de instauração e teorização no campo das artes. Ao contrário do que se poderia supor a partir de sua dimensão puramente institucional ou material, a curadoria instaura quando seu gesto criativo estabelece e sustenta uma realidade própria, a ser vivida e experimentada segundo seus próprios parâmetros. De modo semelhante, diferentemente das ciências duras, que operam segundo lógicas internas altamente organizadas e sistematicamente aplicáveis ao mundo exterior com certo grau de objetividade, a teorização por meio da curadoria pode ser compreendida como uma forma de cartografar, cognitivamente e sensorialmente, as abstrações da vida cotidiana. Não se trata de impor sentidos às obras, mas de praticar uma crítica situada, livre de aplicações instrumentais.
Trata-se, portanto, de uma metodologia essencialmente especulativa, na medida em que se abre ao risco e à incerteza da proposição. Quando o filósofo e matemático Alfred North Whitehead2 afirmou, em certa ocasião, que é mais importante que uma proposição seja interessante do que verdadeira, foi porque, mesmo que falsa, uma proposição interessante pode estimular a imaginação e, ato contínuo, o pensamento. Instaurar, especular e teorizar por meio da curadoria, valendo-se da ficção, é um gesto singular justamente por não se orientar por valores estritamente epistemológicos, mas por uma lógica estética, onde a potência da invenção se sobrepõe a validade do enunciado.
Seguindo as ideias de instauração e teorização, na esteira das responsabilidades envolvidas em um jogo de cama de gato, gostaria de reverberar uma proposição de Viveiros de Castro que também pode ser mobilizada em uma programação como esta: em vez de buscar incessantemente explicar o mundo dos outros, tratemos de multiplicar o nosso próprio mundo, “povoando-o com todos esses expressos que não existem fora de suas expressões”. O gesto está em preservar as virtualidades como tais, permitindo que as obras, como experiência, se desdobrem em outras direções.
Texto e curadoria de Pedro Azevedo, com colaboração de Allegra Cordero di Montezemolo
Julho de 2025.
1 HARAWAY, Donna. Ficar com o Problema: Fazer Parentes no Chthuluceno. Tradução de Ana Luiza Braga. São Paulo: n-1 edições, 2023
2 apud VISHMIDT, Marina. Speculation as a mode of production: forms of value in subjectivity in art and capital. Cambridge, MA: MIT Press, 2023
Pedro Azevedo is a researcher and programmer in cinema and visual arts. He is currently a PhD candidate in arts at UFC and holds a master’s degree in art studies from the University of Porto. His work focuses on curatorship, museology, and film criticism. He was curator at Cinema do Dragão (2013–2022) and Head of Collection and Research at the Museum of Image and Sound of Ceará (2022–2023). He also teaches courses and workshops in both public and private institutions.
Azevedo is the artistic director of colo.zone, a platform that creates a space of exchange between curatorial and critical thinking, featuring Brazilian and international artists alongside essays, interviews, and courses. Since 2024, he has served as the Director of Programming for the Janela Internacional de Cinema do Recife.
He currently collaborates with Pivô Arte e Pesquisa in the area of audiovisual curatorship and contributes to the culture section of the newspaper O Povo, where he writes about national and international film festivals. A member of Abraccine (Brazilian Association of Film Critics), he was part of its board from 2019 to 2022, during which he coordinated the Sessão Abraccine project. He is a contributing author of Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais, Cinema fantástico brasileiro: 100 filmes essenciais, and other titles from the same series. He has also curated exhibitions such as À Nordeste – Cinema de Reinvenção (Sesc 24 de Maio, São Paulo) and Passeio Noturno (MIS, Fortaleza), and was part of the curatorial team of the Brasília Festival of Brazilian Cinema.
Satélite #7
Satélite #7
Diversos autores da teoria crítica e das ciências políticas apontam hoje para a urgência de retomar a utopia como horizonte estruturante da esquerda em escala global. The red city of the planet of capitalism explora a ambiguidade presente na forma como nos relacionamos com os grandes projetos utópicos do comunismo no século XX, contrapondo os ideais modernistas da arquitetura de Le Corbusier à proposta de “desurbanização” entoada por seu discípulo Moisei Ginzburg, que defendia o desaparecimento dos marcos urbanísticos tradicionais diante da crescente desigualdade de classes e da superlotação. A artista Bahar Noorizadeh recorre a um vasto repertório de imagens e textos de arquivo para modelar, em cenas digitais altamente processadas em 3D, uma paisagem que coloca o espectador no centro de uma encruzilhada histórica, onde passado, presente e futuro se sobrepõem num mesmo plano.
Realizado em película 16mm, Dropspike marca a segunda incursão da brasileira Letícia Ramos em seu projeto intitulado Histórias do fim do mundo, no qual a artista propõe filmar os efeitos das mudanças climáticas em diferentes paisagens do planeta. A escolha do filme analógico como suporte material não é um dado irrelevante para a obra: é justamente por meio da montagem e do trabalho sobre os aspectos formais que enlaçam as superfícies irregulares da imagem fotoquímica que Letícia constrói um certo sentido de suspensão temporal, típico da ficção científica e da ficção especulativa.
Letícia Ramos explores the production limits of the experimental analogue image through works in photography and film. Her practice points to the aesthetic intersections between science and fiction transiting between natural and imaginary landscapes.
She has won photography awards such as Besphoto / NovoBanco, Brasil Fotografía Award, Bolsa Zuum / Moreira Salles Institute, Marc Ferrez Award and the Beca de Creación de la Fundación Botin. Her works were exhibited in spaces such as Tate Modern, Pivô Art Center, Moreira Salles Institute, Itaú Cultural, Fundación Iberê Camargo, Berardo Collection Museum, CAPC Musée d’art contemporain (Bordeaux). Her works are in collections such as Fundacion Botin, Noveo Musee de Monaco, Museum of Modern Art SP – RJ and Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Participated in the exhibition Between Our Knots: Ten Years of ZUM/IMS Grant in 2023
O título da obra já sugere a ambiguidade com que Mona Beyamin lida com a questão territorial que atravessa seu filme. Moonscape remete tanto à representação visual da lua quanto à descrição de uma região devastada pela guerra. Estruturado como um videoclipe musical, o curta é guiado por uma canção composta pela própria artista e interpretada em árabe por seus pais. Por meio de uma troca de e-mails com a Lunar Embassy, empresa fundada nos anos 1980 e especializada na venda de lotes de terrenos em planetas e luas do sistema solar, Mona Beyamin articula uma constelação de referências visuais que ecoam a pilhagem dos territórios palestinos no Oriente Médio. A artista recorre à ficção especulativa como ferramenta que lhe assegura agência política e criativa em escalas tanto micro quanto macro-históricas.
Miasma, Plants, Export Paintings revisita o período de dominação colonial britânica em Hong Kong a partir de uma investigação sobre a exploração extrativista de plantas tropicais, com destaque para a atuação pioneira do botânico imperial Joseph Banks. A obra articula dezenas de arquivos e atravessa múltiplas temporalidades da cultura visual oriental marcada por olhares ocidentais. Apresentado como uma instalação em dois canais, o filme opera simultaneamente como documentário e ensaio, ecoando as incertezas do artista por meio de uma narração íntima que se constrói com e através de uma história não linear.
Corrientes mercuriales tem origem em uma pesquisa desenvolvida pela artista Carolina Fusilier, motivada pela busca por uma fotografia de seu pai tirada em 1996, durante as sucessivas crises financeiras que marcaram a Argentina naquela década. Acionando referências do imaginário da ficção científica, Fusilier transforma sua própria história familiar em um gatilho para traduzir a experiência de um período assombrado no país, experimentando livremente com efeitos visuais e com a criação de uma paisagem sonora profundamente imersiva.
Transitando entre ambientes naturais e virtuais, El Salto, do artista Juan Covelli, filma a cachoeira Salto de Tequendama, marco paisagístico e símbolo visual da Colômbia nos séculos XIX e XX. A obra integra uma série mais ampla intitulada Miragens, na qual Covelli investiga arquivos históricos que revelam as múltiplas formas de representação das paisagens colombianas e suas reverberações no imaginário contemporâneo do país. Utilizando ferramentas digitais como inteligência artificial, modelagem 3D e software de realidade virtual, o artista constrói uma metacrítica à centralidade do olhar humano e às lógicas de excepcionalismo que modulam a relação entre tecnologia e natureza
Ronquidos Oceánicos is a project that began in 2017, conceived by Florencia Rodriguez Giles and Emilio Bianchic, with the intention of exploring the underwater world and its connections with the unconscious.
The first experiment was to film under the Red Sea, and the result was presented during the Bienal de Performance de Buenos Aires in 2019. The proposal was a videoinstallation, which consisted of a pool filled with cushions that simulated water and an oblique screen so that one could watch the video lying down, as if floating. Sometimes, cushion performers appeared, lying nearby and massaging the viewers.
In 2022, they were invited by Palm Heights Residency to visit the Cayman Islands to continue the project. The trip gave birth to Ronquidos Oceánicos II Insomnia, presented on Pivô Satélite.
In this second episode, the sensations are intensified in the manner of a horror fiction documentary.
It can be said that this series of videos is an implicit denunciation of the “use” of the land and the sea and the capitalist excess that keeps us awake at night, a request for environmentalist help, as well as the presentation of a body that transmutes into a new species, among other things. Florencia and Emilio once again achieve an ambiguous hypnosis of survival among fish, seaweed and luxury hotels.
— Violeta Mansilla
This project is a realization of the Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo and Pivô Arte e Pesquisa, through the Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais PROMAC, established by Law n°15.948/2013.
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Ronquidos Oceánicos es un proyecto iniciado en 2017 por Florencia Rodriguez Giles y Emilio Bianchic, con la intención de explorar el mundo submarino y sus conexiones con el inconsciente.
La primera experiencia fue filmar bajo el Mar Rojo y el resultado se presentó durante la Bienal de Performance de Buenos Aires en 2019. La propuesta fue una video-instalación, que consistía en una pileta llena de almohadones que simulaban el agua y la pantalla oblicua para poder disfrutar el video acostadx, como flotando. Por momentos aparecían almohadones performers que se acostaban cerca y daban masajes a lxs espectadorxs.
En 2022 son invitados por Palm Heights Residency a las Islas Cayman a continuar con el proyecto, que da lugar a Ronquidos Oceánicos II Insomnia presentado en Pivo Satélite.
En este segundo episodio, las sensaciones se intensifican a modo de una ficción de terror documental.
Se podría decir que esta serie de videos es una denuncia implícita al “uso” de las tierras y mares y al exceso capitalista que nos quita el sueño, un pedido de socorro ambientalista, como también la presentación de un cuerpo transmutando a otres especies, entre otras cosas. Florencia y Emilio logran una vez más una hipnosis ambigua de supervivencia entre peces, algas y hoteles de lujo.
— Violeta Mansilla
Este proyecto es una realización de la Secretaría Municipal de Cultura de São Paulo y Pivô Arte e Pesquisa, a través del Programa Municipal de Apoyo a Proyectos Culturales PROMAC, instituido por la Ley n°15.948/2013.
Works with video, performance, and artificial nails. Their work explores the boundaries of identity, nature, and culture, examining their multiple productions and inefficacies. In 2018, they received the National Visual Arts Award of Uruguay. They are a certified PADI Diver and currently live between Buenos Aires and Mexico City. Since 2018, they have been collaborating with Florencia Rodriguez Giles on a project that delves into the imaginative power of the underwater world.
Participated in Pivô Satélite 2023.
This project is a realization of the Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo and Pivô Arte e Pesquisa, through the Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais PROMAC, established by Law n°15.948/2013.
Florencia Rodriguez Giles explores the relationship between contemporary artistic practices and therapeutic procedures through means that include drawing, video, performance, and research into experimental pedagogical practices. Since 2018, she has had a project with Emilio Bianchic that explores the imaginative power of the underwater world. She holds a degree from the Escuela Nacional de Bellas Artes Prilidiano Pueyrredon and is a certified PADI diver. In 2006, she continued her training with Nicola Costantino. The following year, she attended the Diana Aisenberg art clinic, and between 2010 and 2011, she participated in the Kuitca Scholarship / Torcuato Di Tella University.
Her work has been supported by numerous grants, including from the National Endowment for the Arts, the Fundación Antorchas of the Ministry of Culture of the Argentine Nation, and the Centre National des Arts Plastiques (CNAP) in France. In 2016, she received the first Braque Muntref Prize, and in 2019, the first Federico Klemm Prize. She has also participated in residencies at Palm Heights Hotel (Cayman Islands, 2022); Le Magasin- Centre National d’Art Contemporain (Grenoble, France, 2017); Frac Lorraine (Metz, France, 2016); Cité Internationale des Arts (Paris, France, 2016-2017); Paradise Air (Japan, 2015); Arcus Studio Residency for Artists (Japan, 2014); and AIT- Arts Initiative Tokyo (Tokyo, Japan, 2009).
Among her individual performances and exhibitions, the following stand out: Symtomario (Museo de Arte Moderno de Buenos Aires, 2022), Ronco Oceânico (Performance Biennial, 2019), Biodelica (Galería Ruth Benzacar, 2018); EsquizoPicnic (Museo Reina Sofía, Spain, 2018); Liminoid Session (Palais de Tokyo, France, 2016); Strabisme Internet (Galerie Bendana-Pinel, 2016); Hiperestesia (Muntref, 2016).
The therapeutic possibilities of artistic practice are part of her research fields. In this context, her work at the Clube de Artes e Lazer (La Plata, 2021-), GAYA (La Plata, 2019), INHA (Paris, 2019), EHPAD, Solexine, (G.E.M.) (Grenoble, 2017-18), the palliative care service for adults at the Legouest Hospital (Metz, 2016), the Luis Agote Juvenile Institute (Bs. As, 2014), and the Ricardo Gutierrez Children’s Hospital, Palliative Care Area (2010-2016) is worth highlighting.
She participated in Pivô Satélite 2023.
This project is a realization of the Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo and Pivô Arte e Pesquisa, through the Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais PROMAC, established by Law n°15.948/2013.
Comissionada para a edição #4 do Pivô Satélite, Terrário é uma obra de Gabriel Junqueira, realizada com softwares de modelagem arquitetônica 3D para recriar os espaços do Copan e do Pivô. O trabalho apresenta uma São Paulo imaginária, tomada pela selva, onde utopia modernista e distopia se misturam numa paisagem de ruínas que sugere um retorno às origens naturais.
Gabriel Junqueira (Fortaleza, Ceará, 1992) is a multimedia artist who explores the relationships between body, technology and materiality in supports such as digital images, sculptures and installations.
His recent research revolves around the relationship between built spaces and nature through the creation of landscapes in 3D architectural visualization software, commonly used in the real estate market to simulate structures to be built. Seeking inspiration from corporate architecture and landscaping concepts, the artist creates impossible locations, where figurative elements are rearranged to abstraction.
As an extension of his research in visual arts, since 2018 he has been dedicated to the musical project “Naves Cilíndricas”. In 2020, he released two albums: “Imagens de Desastres Em Alta Resolution” by the Meia Vida label and “Névoa” by the Domina label.
Artist participating in Pivô Satellite #4 (2022)

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