Abertura: 01/04 (quarta-feira), às 19h
Visitação: Terça a sábado, 13h às 19h. Domingo e feriado, 12h às 18h. Segunda (20/04), 13h às 19h
Entrada gratuita
SP-Arte
09 e 10/04, 12h às 20h | 11/04, 11h às 20h | 12/04, 12h às 19h
Ingressos para a feira em [bilheteria.sp-arte.com]
O Pivô Copan inicia sua programação de 2026 com a terceira edição do Projeto Vitrine, que apresenta obras inéditas de Paulo Monteiro e Gokula Stoffel, produzidas em colaboração. A exposição acontece de 1º a 21 de abril, com abertura no dia 1.04 (quarta-feira), às 19h, iniciando as celebrações dos 15 anos do Pivô. O projeto integra também a programação da SP-Arte, entre os dias 8 e 12 de abril.
O Projeto Vitrine, que já recebeu as duplas Sônia Gomes e Juliana Santos (2021) e Erika Verzutti e Anderson Borba (2023) em edições anteriores, toma como ponto de partida o encontro entre artistas que compartilham uma história comum, seja de amizade, afeto ou colaboração prévia, propondo que essa proximidade se torne o próprio motor da criação. Nesta edição, a dupla Monteiro e Stoffel, que já divide uma relação íntima de convivência, lança o desafio de um encontro entre práticas distintas, em que a intimidade se torna matéria.
Durante o processo colaborativo, suas linguagens se cruzam e borram fronteiras, em um campo de troca e contaminação mútua, dando origem a 30 pinturas inéditas, construídas a 4 mãos. As imersões de produção serão registradas e apresentadas em vídeo especial, exibido junto às obras, no qual os artistas compartilham reflexões, técnicas e processos. A mostra conta com um texto curatorial assinado por Julia de Souza.
As obras apresentadas na exposição estarão disponíveis para aquisição tanto online, por meio do site do Pivô, quanto presencialmente no Pivô Copan e durante a participação da instituição na SP-Arte 2026. O Projeto Vitrine integra as celebrações e as estratégias de sustentabilidade do Pivô, contribuindo para a continuidade de sua programação artística e para o apoio direto aos artistas participantes, fortalecendo a rede de produção e difusão da arte contemporânea.
Acesse o site: https://pivo.org.br/projeto-vitrine/
Como dois e dois
Two trees
cling close
like lovers
(one will
fall first)
— Paulo Henriques Britto
E brincaram mais outra vez
— Mário de Andrade em Macunaíma
Começamos assim: faço da sua figura o meu fundo. Mas os dentes ficaram. Sim, a dentadura do céu. Deite-se comigo sob essa gengiva. Pisquei os olhos, anoiteceu. Dormimos — morremos — na marola, agora. Pisquei os olhos e o céu grita em cor-de-rosa. E fomos engolidos pelo sol. Me passa a brasa. Fique à vontade. Acendo uma vela para ver melhor. O quê? A noite na gruta. A fenda na rocha. As mãos de vinte mil anos. E os dois olhos tão acesos quanto a lua, que olham para o homem do futuro. Futuro? Sujo as mãos de um barro pretérito. Esfrego-as aqui. Quem mexeu no meu Krishna? My Sweet Lord… Vá, suba logo na garupa da figura. Sou mais pesado do que você pensa. “E você ri, achando que eu te mordi”. Quem foi que disse isso? Já não me lembro. Fui eu. Fui eu. Ah, veja só, que beleza de quadrúpede…
*
Nessas composições a quatro mãos, Gokula Stoffel e Paulo Monteiro se lançam num jogo de alternâncias, encaixes e superposições que aludem às ambivalências do encontro amoroso. A “condição misturada” dos amantes, que envolve um lapso temporário das individualidades, não acontece sem revezes. “Eros é expropriação”, escreveu Anne Carson. Os artistas se embolam, se engalfinham, imitam um ao outro mais pela mímica do que pela mimese. As imagens que brotam desse cabo-de-guerra, tão incogitadas quanto sedimentares, são fruto de um movimento sensual de adulterações e sobreposições sucessivas — os amantes, os artistas, fazem uma cama eterna, jogando uma colcha sobre a outra (uma camada ocre, uma preta, outra azul, uma branca, e a azul-clara), compondo estratos geológicos cuja espessura só faz inchar.
A veemência e o paradoxo do magnetismo — em Transa, não sabemos se o sol fumante e a forma roxa cheia de olhos se atraem ou se repelem — convivem com alguns seres tão cadavéricos quanto altivos: no leito derradeiro, uma mulher esguicha pela boca seu último jorro. E na canoa que flutua sob o céu estrelado, são dois esqueletos que se abraçam. A “condição misturada” sempre traz, a reboque, uma espreita da morte.
Se há diferença — tonal, gestual, morfológica — entre as linguagens de Gokula e Paulo, aqui os artistas exercitam o desafio de sua articulação. Esse movimento de ajuste e fricção entre idiomas distintos deságua em imagens que soam como trocadilhos: não à toa, Let it Bee é o título de uma dessas pinturas, em que insetos de toda sorte, além de uma centopeia, se entrincheiram em formas arredondadas e flutuantes, à espera de um enxame furioso de abelhas que se aproxima. A batalha é iminente — ou já está em curso, a julgar pelo enorme mosquito que se refestela com o sangue fresco que escorre de seu bico. Graça, terror e gozo. O trocadilho do título zomba do clima de carnificina da imagem: Let it bee distorce e ecoa a expressão “Let it be”: deixe estar. O cotejo entre esses sintagmas — que coincidem foneticamente mas não possuem contiguidade semântica — só se acende de fato quando triangulado com a cena bélica da pintura: o embate da abelha (bee) ou o repouso do estar (be)? O que vai prevalecer? Do confronto entre esses enunciados e tonalidades, desponta o vislumbre de uma terceira impressão: estranha, instável, de difícil apreensão, mas ainda mais genuína.
Como gato e rato, Gokula e Paulo se procuram incansavelmente. Tudo é uma permuta de ímpetos, intervalos, contaminações, emendas, silêncios, retomadas. Na toada erótica da brincadeira, o que rege é a lei da repetição. Mais uma vez, “sempre de novo, cem e mil vezes”, parecem grunhir esses trabalhos, com a língua entre os dentes. Ao fundo, um disco riscado insiste: “Ai, meu amor, para sempre/ nunca me conceda descansar”.
As obras de Gokula Stoffel nascem da atenção ao seu entorno: a familiaridade com seus materiais é fornecida pelo contexto em que produz e seus trabalhos são informados e alimentados pelo encontro e pela troca. A artista incorpora tecidos que ganhou de presente, ramos de lavanda colhidos nas imediações de seu ateliê, exercícios diários quase meditativos, conversas com amigos e conhecidos. Estofados, urdiduras, resinas, fibras naturais e sintéticas compartilham o espaço em composições que articulam a execução livre com uma intensidade emocional palpável, numa pesquisa que atravessa suportes como pintura, escultura, tecelagem e desenho. Stoffel usa as mãos em um trabalho, pincel e linha de costura em outros, descobrindo uma ordem subjacente às suas obras, escorada não na fidelidade a uma técnica e sua execução límpida, mas numa prática sinuosa, que incorpora o acaso e as propriedades inerentes da matéria.
Suas exposições individuais incluem Um lugar para a cabeça, Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo, Brasil (2025); Thinking Hands, François Ghebaly, Nova York, Estados Unidos (2024); The Moon Between My Teeth, Elizabeth Xi Bauer, London, UK (2023) Espantália, Lanterna Mágica | Projeto Vênus, São Paulo, Brasil (2023); Persona, Fortes D’Aloia & Gabriel (2021) Fevereiro, Mendes Wood DM, São Paulo, Brasil (2019); Change-Change Project, Budapeste, Hungria (2018); Para-Sol, Pivô, São Paulo, Brasil (2018); Alvorada de Vênus, Auroras, São Paulo, Brasil (2018). Entre as suas exposições coletivas estão Corpos Terrestres, Corpos Celestes, Galatea Salvador, Salvador, Brazil (2025); Nunca só essa mente, nunca só esse mundo, Carpintaria, Rio de Janeiro, Brasil (2023); Drops, Galeria Index, Brasília, Brasil (2021); Punk Alegria Tropical, Galeria Dândi, São Paulo, Brasil (2019); Nightfall, Mendes Wood DM, Bruxelas, Bélgica (2018); Individuation as an Instrument of Abstraction, Kunsteverein, Berlin, Alemanha (2016) e Abre Alas #12, A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, Brasil (2016).
Em seu trabalho, Paulo Monteiro desenvolve sua reconciliação contínua com as formas duais da pintura e da escultura explorando de maneira contínua as margens e os limites da forma. Desse modo, utiliza o espaço negativo como um meio, fazendo com que as pinturas pareçam esculturas e as esculturas pareçam pinturas.
Monteiro iniciou sua prática artística em 1977, reunindo, de modo precário, pedaços de madeira em composições que sugeriam simultaneamente movimento e colapso, concentrando-se na expressão do material. Entre 1983 e 1985, integrou o grupo Casa 7, ao lado de Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Nuno Ramos e Rodrigo Andrade. No fim dos anos 1980 e no início da década de 2000, Monteiro mergulhou em sua prática escultural. Seu retorno à pintura, feito há mais de uma década, trouxe um novo nível de consciência à sua obra, na qual a tinta é empurrada para os cantos da tela, criando fronteiras vigorosas, físicas.
Seu trabalho integra inúmeras coleções permanentes, incluindo: The Museum of Modern Art (MoMA), Nova York; Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-SP), São Paulo; Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), Rio de Janeiro; Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC-Niterói), Rio de Janeiro; e Start Museum, Xangai.

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