Em agosto, o Pivô apresenta duas exposições individuais dos artistas colombianos Danilo Dueñas (Cali, 1956) e Herlyng Ferla (Cali, 1984) dentro do seu Programa Anual de Exposições.
Danilo Dueñas ocupará o espaço expositivo principal, enquanto Herlyng Ferla irá inaugurar o espaço expositivo no segundo andar. Ambos os artistas estão trabalhando nos estúdios do Pivô, onde produzem os trabalhos que serão mostrados no Brasil pela primeira vez.
Em sua prática, Danilo Dueñas desenha no espaço com objetos e mobiliários que muitas vezes perderam seu propósito original – portas, pedaços de metal, gavetas, retalhos de madeiras e sofás podem ser o começo de uma obra de arte. O artista seleciona os elementos de sua obra com especial interesse por aqueles que estão prestes a serem desprezados e que na vida prática já são considerados obsoletos. O artista tem um conhecimento aprofundado sobre teoria e história da arte, e alia a esses objetos referências provenientes desse vasto repertório, muitas vezes os títulos das obras são tão importantes quanto os materiais que ganham nova vida nas instalações do artista.
Dueñas nos apresenta uma nova via de acesso ao que costumamos chamar de realidade e, transformando o ritmo do espaço, rearranja os objetos de uma forma com a qual não estamos acostumados. O artista cria no espectador a expectativa de movimento dos materiais que compõem sua obra. Através de um equilíbrio delicado entre as partes que elege e eleva ao status de escultura/instalação, Dueñas provoca uma encontro complexo entre a materialidade do mundo e o contexto em que é exibido um trabalho de arte. Ao se relacionar profundamente com o ambiente que o circunda, o artista abre veredas particulares e novas possibilidades de interação com o que já é dado como escombro.
Para a exposição no Pivô, Danilo produzirá obras inéditas, especialmente comissionadas para o espaço, tendo à sua disposição a reserva técnica e o depósito da instituição. O artista sempre parte de uma seleção criteriosa e do rearranjo de objetos descartados disponíveis no próprio contexto em que vai trabalhar, e nesse caso considerará , além do material recolhido no ambiente da exposição, o contexto do centro de São Paulo e as suas inúmeras caçambas com resíduos de demolições e construção civil.
Danilo é professor universitário desde 1990. Já lecionou na Universidade dos Andes, na Universidade Nacional da Colômbia, na Universidade de Bogotá Tadeo Lozano. Sua ampla atuação universitária fez com que sua prática e pensamento influenciasse jovens artistas colombianos. Por esse motivo, o Pivô propõe o diálogo intergeracional a fim de tornar visível a influência da prática de Danilo em seu país de origem e investigar possíveis correspondências com a produção artística brasileira.
Herlyng Ferla, por sua vez, apresenta parte de sua pesquisa no novo espaço expositivo do Pivô, levantando questões sobre opacidade e transparência, amparadas pela teoria do poeta e filósofo martinicano Édouard Glissant., presentes no conjunto de obras aqui mostradas. Num diálogo estreito com Danilo Dueñas, o trabalho de Ferla busca tecer relações entre a estrutura interna dos objetos e a transformação que sofreram com o uso cotidiano. Parte importante de sua prática concentra-se na coleta de objetos e na realização de modificações mínimas, sugeridas pela própria materialidade dos mesmos.
Uma das obras da exposição é a reedição da obra Sem Título, integrante da exposição Geometria do Azar, realizada em 20xx, que consiste em um piso de vidro, recortado em ladrilhos geométricos que, visto de longe, parece uma poça d’água. Para esse nova montagem, soma-se ao piso uma pequena palmeira recém-nascida, brotando de um coco. A imagem desse fruto-semente aparece na exposição quase como uma afirmação da necessidade da permeabilidade das fronteiras, pois essa semente, por ter pouca densidade e ser preenchida por ar, pode percorrer longas distâncias sem afundar, propagando-se pelas correntes marítimas, desenvolvendo-se e adaptando-se a outros territórios que não o seu de origem, como no caso de várias espécies de palmeiras que vieram da África e se adaptaram perfeitamente à América do Sul.
A curadoria das exposições é uma parceria entre Fernanda Brenner, diretora artística do Pivô, e Marilia Loureiro, curadora brasileira que viveu na Colômbia entre 2015-2016. Durante esse período, atuou como curadora-visitante do lugar a dudas, espaço criado pelo artista Oscar Muñoz, em Cali. Desde então, Marilia e Herlyng estabeleceram um diálogo contínuo, que culmina no desenvolvimento da exposição no Pivô. Atualmente Marilia reside em São Paulo e é curadora da Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro.
Sobre Danilo Dueñas
Vive e trabalha em Bogotá. Nasceu em Cali, Colômbia
Em 1999, foi premiado com o Johnnie Walker Art Prize. Em 2011/2012 foi convidado para o programa de residência do DAAD em Berlim. Participou de várias exposições internacionais incluindo as coletivas Beuys y más allá: El enseñar como arte na Biblioteca Luis Angel Arango em Bogotá; Correspondences: Contemporary Art from the Colección Patricia Phelps de Cisneros no Wheaton College, Norton, EUA; Mesótica no Museu e Arte e Desenho Contemporâneo em São José, Costa Rica e Transtlantica no Museu Alejando Otero em Caracas e individuais no Museu de Arte Contemporânea de Caracas (2003), Museu de Arte Moderna e Museu de Arte da Universidade Nacional (2001)
Sobre Herlyng Ferla
Nasceu em Cali, Colômbia, onde vive e trabalha.
Entre seus projetos recentes estão ”Horas extra, MIAMI, Bogotá 2016; Acorazado Patacón, La Tabacalera, Madrid 2015; El cambio de todo lo que permanece (con La Nocturna), Pabellón Artecámara, ArtBo, Bogotá 2014; 6o Salón de Arte Bidimensional, Fundación Gilberto Alzate Avendaño, Bogotá 2014; El hueco que deja el diablo, Sala de Proyectos del Departamento de Artes, Universidad de los Andes, Bogotá 2014; La desilusión de la certeza o La ilusión de la incertidumbre, Pabellón Artecámara, ArtBo, Bogotá 2013; Construcciones del deseo, Bienal Internacional de Arte SIART, La Paz 2013; Sin título (individual), Lugar A Dudas, Cali 2013; Obras apócrifas, Museo de Arte Religioso, Cali 2013; Metafísica concreta (individual), Proartes, Cali 2012; ¿Qué cosa es la verdad?, 14 Salones Regionales de Artistas, Museo La Tertulia, Cali 2012; del cuerpo (individual), Galería Jenny Vilà, Cali 2011.
Sobre Marilia Loureiro
Nasceu em São Paulo onde vive e trabalha.
Conhece intimamente a cena jovem de arte colombiana pois integrou a equipe do Lugar a Dudas
em Cali. Integrou a equipe de produção da 29a Bienal de São Paulo, trabalhou como assistente de
curadoria no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), como assistente editorial no
Ateliê397 e atualmente é curadora da Casa do Povo.
LES HABIA DICHO QUE LA PARED CAERIA
Danilo Dueñas e Herlyng Ferla têm em comum um envolvimento obstinado com o mundo que os cerca. A diferença de pouco menos de trinta anos que os separa é quase a mesma que marca a passagem da guerrilha dos exércitos populares da Colômbia (FARC), cuja origem é de 1964-66 , para a violência gerada pela ascensão de grupos paramilitares de direita e do narcotráfico. A complexa realidade sociopolítica do país permeia – de uma forma mais ou menos literal – a obra de um grande número de artistas colombianos contemporâneos aos dois artistas em questão. No entanto, não me parece possível ler os trabalhos de Dueñas e Ferla somente a partir de uma perspectiva contextual.
O desejo inicial de trazer ao Brasil o trabalho desses artistas partiu de uma vontade institucional de contribuir para que os vínculos entre as cenas artísticas dos dois países fossem estreitados a partir de uma apresentação individual e consistente de seus trabalhos. As mostras são paralelas (uma em cada andar do Pivô) e se entrelaçam em algum ponto da caminhada que as separa. Após trabalhar por algumas semanas com os dois artistas no espaço, subindo e descendo inúmeras vezes a escada que liga as duas exposições, a ideia de pensar qualquer tipo de representatividade nacional ou traçar um paralelo interpretativo entre eles foi perdendo o sentido.
Dueñas começou a eleger e mover objetos encontrados pelo Pivô para o espaço expositivo assim que chegou; enquanto Ferla trouxe consigo um projeto iniciado quando foi convidado para a exposição e um teórico guia: o filósofo-poeta martinicano Edouard Glissant. Esses primeiros contatos com os artistas, já no ambiente em que seriam instaladas suas respectivas exposições, revelaram duas metodologias claramente distintas. Dueñas parecia trabalhar como um diretor de cena, construindo obstinadamente uma coreografia entre os elementos escolhidos para participar da dança, enquanto Ferla caminhava atento pela cidade na busca de objetos e suas possíveis relações, munido dos pensamentos do autor martinicano.
Edouard Glissant, que recusa deliberadamente qualquer categorização de seu trabalho, quando indagado sobre como poderia qualificar seu livro Tout-Monde (1993) – romance, teoria ou qualquer outra coisa – respondeu: “Aquilo ou aquele que fala é múltiplo, não se pode saber de onde vem porque talvez ele mesmo não saiba e não controla, não dirige a emissão da fala. Aquilo que é projetado como fala encontra um outro múltiplo, que é o múltiplo do mundo. Quando se desenha uma poética da diversidade como tenho a intenção de fazer, não se pode falar do ponto de vista da unicidade” (Glissant, 2005, p 153-154). Apesar da diferença geracional e metodológica, os dois artistas se encontram na medida em que se propõem a refazer – a partir de um movimento ético e estético igualmente comprometido e meticuloso – as relações entre as coisas que nos cercam, tornando indissociáveis – à maneira de Glissant – “aquilos e aqueles”.
Por meio de jogos entre opacidade e transparência, Ferla trouxe ao ambiente de sua exposição o conceito de “crioulização”, cujo autor martinicano define como o fenômeno em que duas culturas se imbricam e se confundem, dando lugar a algo absolutamente novo e imprevisível. Segundo Glissant, a forma mais comum de crioulização se dá através de processos de opressão e desapossamento, o que chama de “conversão do ser”, sendo a escravidão talvez o exemplo mais contundente dessa tese. Os povos escravizados chegam despojados de toda relação física com sua cultura de origem e também de sua língua. O autor acredita que o ser que é submetido a esse “estado de despojamento” reconstrói sua realidade a partir de rastros/resíduos da língua, de lembranças e de manifestações artísticas que possam ser comuns a todos. O africano escravizado já não podia mais realizar rituais públicos ou replicar objetivamente hábitos diários de sua vida pregressa, mas é justamente a partir de fragmentos de afeto e memórias compartilhados nesse novo contexto que uma nova maneira de agir emerge – longe dos sistemas de pensamento pré-estabelecidos e além de qualquer oposição binária.
Ao abrir sua prática para os estímulos recebidos durante sua estadia em São Paulo, Ferla destaca a “falsa universalidade” de sistemas de pensamento – a catequização de outrora não se distancia tanto da atual hegemonia da linguagem tecnológica e da sociedade de consumo. O artista trouxe um projeto como quem traz um caderno parcialmente anotado para o campo: é na relação com o vivido que ele finalmente se preenche. Ao contrário de Dueñas – que constrói um ambiente total a partir de um envolvimento essencialmente fenomenológico com os elementos com que trabalha -, na exposição de Ferla, cada objeto no espaço tem uma razão de ser precisa e participa ativamente do entrelace conceitual que norteia a mostra. O grupo de trabalhos resultante desse embate entre projeto e prática lida com a questão da preservação da opacidade como forma de resistência à transparência do “real” e seus corolários: a objetividade do conhecimento, a imposição da História em detrimento das histórias regionais e toda a metafísica ocidental focada na ideia do “uno”. Em um dos trabalhos, o artista sobrepõe um coco contendo uma palmeira a uma grande área montada com peças de vidro cortadas na forma de ladrilhos. A partir dessa imagem, Ferla nos lembra que a fruta flutua para além das fronteiras nacionais, adaptando-se e modificando-se desde a África até a América e que aquilo que de longe parece ser uma poça d’água, de perto, torna-se uma nova possibilidade de pavimento.
O conceito de crioulização encontra um eco claro na prática de Dueñas, na medida em que o artista ressalta o potencial plástico de materiais residuais ou objetos ordinários, conferindo-lhes uma nova singularidade no contexto de suas instalações e esculturas. A exposição de Dueñas é uma obra em si. O resultado do encontro dos materiais é imprevisível e depende do envolvimento de cada uma das peças manipuladas pelo artista – é certo que a parede cai sob a ação de marretadas, mas o que a queda revela é sempre uma surpresa*. Todos os elementos da exposição preservam suas características originais, inclusive o próprio espaço; nada foi limpo, pintado, polido ou desfeito, as coisas simplesmente existem segundo as coordenadas de Dueñas e em relações provisórias: a matéria prima “está arte” durante o período expositivo e volta a ser resíduo após seu término. O aspecto transitório – mas não por isso impreciso – das obras de Dueñas e sua fé profunda no potencial poético de tudo que o circunda nos remete a um momento da História em que a distinção entre o pensamento racional e o pensamento místico não existia. Nesse balé espacial coreografado por Dueñas nada prevalece: seu pensamento mágico e teológico convive com seu extenso repertório teórico sobre História da arte clássica e moderna. O artista habita e faz bom uso dessa contradição.
Cada uma à sua maneira, as duas exposições preveem o movimento e, de certa forma, respondem ao grande desafio da “identidade-rizoma” descrita por Glissant, que é justamente o desafio de se constituir dinamicamente, nas frestas e nas fronteiras diluídas, e não mais a partir de uma raiz comum ou de uma definição formal tida como universal ou absoluta. Para o autor: “o que dita as regras não é mais o “direito universal”, mas o acúmulo de relações (…) O rastro/resíduo supõe e traz em si a divagação do existente, e não o pensamento do ser”. Como o “estado de arte temporário” que acomete os materiais de Dueñas, as culturas nunca são, mas estão dentro de um processo de relação: convivendo, transformam-se mutuamente. Levando isso em consideração, pensar essas exposições meramente como elos entre duas gerações de artistas ou entre países da América do Sul seria achatar todas as especificidades que as separam e, consequentemente, que as potencializam. Sendo assim, lhes convidamos a parar por um momento no meio da escada que liga – ou separa -, as duas exposições, onde esse jogo de relações se faz mais forte.
*”… Les había dicho que la pared caería. Esperaban el evento sin expectativa de llevarse una sorpresa, pero todos tuvieron que aceptar que cuando sucedió, lo que sucedió fue extraño. Aparecieron tres nuevas paredes, con sus estructuras subyacentes expuestas al mundo. Nunca, por supuesto, sucede esto”. Relato de Danilo Dueñas sobre o processo de montagem de uma exposição recente. A renovação do encantamento com coisas e fatos conhecidos talvez seja o grande propósito do artista, que reitera constantemente em sua fala que os acontecimentos estão impregnados sempre de algum tipo de mistério e que a função do artista é materializa-lo.

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