13H ÀS 19H
A realizacão de Uma História Natural das Ruínas é feita com o apoio do Consulado Geral da França em São Paulo e Trampoline Association.
Uma História Natural das Ruínas é uma exposição coletiva que explora diferentes formas de resistência aos modos como o imaginário colonial moderno hegemônico tem capturado nossa imaginação. Com base em diversas práticas artísticas, esta exposição busca oferecer oportunidades para pensar sobre a cura no que a autora Anna Tsing chama de “sobrevivência precária”. A mostra também tenta abordar as implicações da representação fora da linguagem, a fim de explorar outras tecnologias e formas de inteligência que não as humanas.
No centro da exposição está uma crítica à divisão moderna entre natureza e cultura e suas implicações ontológicas. Por meio de uma série de processos históricos, alguns humanos se separaram da natureza e, portanto, a fabricaram como uma categoria (1). Os regimes coloniais propagam essa noção por meio da educação e da exploração, normalizando a natureza como um “recurso” à disposição dos humanos. Como aponta a etnógrafa Marisol de la Cadena “em vez da negação da humanidade, a colonização possivelmente parte da imposição da humanidade ao colonizado – o que designa modos específicos de ser pessoa” (2). Por exemplo, nomear pode ser um ato de violência colonial, como apontado por Davi Kopenawa ao descrever como os brancos chegaram à floresta e distribuíram nomes aos Yanomami, impondo uma forma (colonial, unívoca) de ser pessoa. Em seu livro How Forests Think [Como as Florestas Pensam], o antropólogo Eduardo Khon se propõe a “nem acabar com o humano, nem reescreve-lo, mas abri-lo” (3). Talvez possamos, por meio dessa abertura de categorias, especular sobre como pessoas não-humanas podem participar de interpretações antropocêntricas da extinção.
Uma História Natural das Ruínas se propõe a pensar sobre a representação da “natureza” , ao mesmo tempo em que questiona a natureza da representação. Donna Haraway oportunamente se dispôs a responder : “o que é tido como natureza, para quem e quando, e quanto custa produzir a natureza em um determinado momento da história para um determinado grupo de pessoas”. Ela, portanto, identifica os processos históricos e as operações semióticas necessárias não apenas para normalizar a natureza como uma categoria colonial e imperial, mas também para produzir e reproduzir a narrativa do “homem universal” (4) como dominante. A noção de natureza originalmente derivada do verbo “nascer”, ou seja, da geração e experiência de vida, ao contrário da definição moderna dela como “todas as coisas desumanas”, implica uma relação quase antagônica baseada em uma divisão binária cristã de alma e corpo, que mais tarde seria secularizada na modernidade europeia como razão e corpo. Ao reconhecer a genealogia da palavra, talvez possamos imaginar e performar algo diferente de uma moralidade antropocêntrica e humanista. Além disso, é em grande parte por meio do conhecimento e das práticas ecológicas dos povos indígenas que essas categorias coloniais em funcionamento têm sido produtivamente desafiadas.
A transformação de museus de “história natural” em museus de “ciências naturais” parece sugerir uma mudança retórica de “história” como um exercício narrativo para a “ciência” como observação desinteressada e objetiva que alcança a separação total de sujeitos (humanos) de objetos (não-humano, outro-que-humano, mas também pessoas humanas submetidas à pesquisa científica). Nesse processo, a história é neutralizada politicamente e a ciência ocidental destituída de seu racismo estrutural. Ao alargar as definições dominantes de tecnologia para incluir algumas que não são inerentes e à noção ocidental de progresso, a arte pode abrir um mundo de multiplicidades onde a realidade criada pela colonização é finalmente revelada como uma construção brutal, mas eficaz na consolidação de uma imagem malfadada de progresso. Para a filósofa da ciência Isabelle Stengers, “ecologia é a ciência das multiplicidades, das causalidades heterogêneas e das criações não intencionais de significado” (5), uma definição que evoca certa imanência da experiência, ou seja, um envolvimento não prescrito com a realidade. Ailton Krenak , por sua vez, a define como “estar dentro da terra, dentro da natureza. Ecologia não é adaptar a natureza à sua vontade. É é estar submetido à vontade da natureza” (6). Desse modo, as ruínas ambientais produzidas na atualidade podem ser parcialmente consideradas como projeções de um inconsciente modernista.
Artistas incluídos na exposição enfrentam a brutalidade das categorias e práticas binárias modernas, a fim de mostrar, cada um à sua maneira, como as coisas se entrelaçam e, como nas palavras de max wíllà morais, “dançar com a violência do mundo”.
Curadoria de Catalina Lozano
Artistas: Denilson Baniwa, Louidgi Beltrame, David Bestué, Minia Biabiany, Paloma Bosquê, Elvira Espejo Ayca, Sheroanawe Hakihiiwe, Isuma, Cristiano Lenhardt, Candice Lin, Lina Mazenett e David Quiroga, max wíllà morais, Daniel Steegmann Mangrané, Janaina Morais, Daniel Steegmann.
Assistente curatorial: María Emilia Fernández
Artistas: Candice Lin, Cristiano Lenhardt, Daniel Steegmann Mangrané, David Bestué, Denilson Baniwa, Elvira Espejo Ayca, Isuma, Janaina Wagner, Lina Mazenett e David Quiroga, Louidgi Beltrame, max wíllà morais, Minia Biabiany, Paloma Bosquê, Sheroanawe Hakihiiwe
Curadoria de Catalina Lozano
Assistente curatorial: María Emilia Fernández
Uma História Natural das Ruínas é uma exposição coletiva que explora diferentes formas de resistência aos modos como o imaginário colonial moderno hegemônico tem capturado nossa imaginação. Com base em diversas práticas artísticas, esta exposição busca oferecer oportunidades para pensar sobre a cura no que a autora Anna Tsing chama de “sobrevivência precária”. A mostra também tenta abordar as implicações da representação fora da linguagem, a fim de explorar outras tecnologias e formas de inteligência que não as humanas.
No centro da exposição está uma crítica à divisão moderna entre natureza e cultura e suas implicações ontológicas. Por meio de uma série de processos históricos, alguns humanos se separaram da natureza e, portanto, a fabricaram como uma categoria. Os regimes coloniais propagam essa noção por meio da educação e da exploração, normalizando a natureza como um “recurso” à disposição dos humanos. É em grande parte por meio do conhecimento e das práticas ecológicas dos povos indígenas que essas categorias coloniais em funcionamento podem ser produtivamente desafiadas.
Uma História Natural das Ruínas se propõe a pensar sobre a representação da “natureza”, ao mesmo tempo em questiona a natureza da representação. Donna Haraway oportunamente se dispôs a responder “o que é tido como natureza, para quem e quando, e quanto custa produzir a natureza em um determinado momento da história para um determinado grupo de pessoas”. Ela, portanto, identifica os processos históricos e as operações semióticas necessárias para, não apenas normalizar a natureza como uma categoria colonial, imperial, mas também para produzir e reproduzir a narrativa do “homem universal” (1) como dominante.
A transformação de museus de “história natural” em museus de “ciências naturais” parece sugerir uma mudança retórica de “história” como um exercício narrativo para “ciência” como observação desinteressada e objetiva que alcança a separação total de sujeitos (humanos) de objetos (não-humano, outro-que-humano, mas também pessoas humanas submetidas à pesquisa científica). Nesse processo, a história é neutralizada politicamente. Ao alargar definições dominantes de tecnologia para incluir algumas que não são inerentes à noção ocidental de progresso, a arte pode abrir um mundo de multiplicidades onde a realidade criada pela colonização é finalmente revelada como uma construção brutal, mas eficaz na consolidação de uma imagem malfadada de progresso. Desse modo, as ruínas produzidas no presente podem ser parcialmente consideradas como a projeção de um inconsciente modernista.
Artistas incluídos na exposição enfrentam a brutalidade das categorias e práticas binárias modernas, a fim de mostrar cada um à sua maneira como as coisas se entrelaçam e, nas palavras de max wíllà morais, “dançar com a violência do mundo”.
Catalina Lozano
1. Donna Haraway, “The National Geographic” on Primates (Paper Tiger TV, 1987). Disponível em https://vimeo.com/123872208
A realizacão de Uma História Natural das Ruínas é feita com o apoio do Consulado Geral da França em São Paulo e Trampoline Association.
Sobre a curadora
Catalina Lozano (Bogotá, 1979) é curadora independente e escritora, é Diretora de Programas da KADIST na América Latina. Nos últimos 10 anos, tem se interessado por narrativas menores que questionam formas hegemônicas de conhecimento. As análises das narrativas coloniais e a desconstrução da divisão moderna entre natureza e cultura têm servido de ponto de partida para muitos de seus recentes e futuros projetos curatoriais e editoriais, como as exposições The willow sees the heron’s image upside down (TEA, Tenerife, 2020), Le jour des esprits et notre nuit (CRAC Alsace, Altkirch, 2019, com curadoria de Elfi Turpin), Winning by Losing (CentroCentro, Madrid, 2019), Ce qui ne sert pas s’oublie (CAPC, Bordéus , 2015), A Machine Desires Instruction as a Garden Desires Discipline (MARCO Vigo, FRAC Lorraine, e Alhóndiga Bilbao, 2013-14), e o livro Crawling Doubles: Colonial Collecting and Affects (B42, Paris), coeditado com Mathieu K. Abonnenc e Lotte Arndt. Em 2018, seu livro The Cure foi publicado pela A.C.A. Público. Entre 2017 e 2019 foi Curadora Associada do Museo Jumex na Cidade do México onde desenvolveu projetos expositivos com Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, Fernanda Gomes e Xavier Le Roy, entre outros artistas, e organizou a exposição Could Be (An Arrow). Uma leitura de La Colección Jumex. Fez parte da equipe artística da 8ª Bienal de Berlim em 2014.

English












































