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Exposição
Katinka Bock: Avalanche
31/08 - 09/11/19
gratuita
Terça a sábado
das 13 às 19 hrs

*Abertura 31 de Agosto das 15h às 19h

Esta exposição é sobre lugares onde as pessoas vivem juntas, populações, zonas problemáticas, zonas de contato e ternura, corpos poluídos, perda de controle, momentos em suspensão, motivos para ficar juntos. Cidades são todas diferentes, mas iguais. Paris e São Paulo, quem se importa, humanos e animais, concreto e palavras, vasos e rachaduras, talvez seja apenas uma questão de temperatura e intensidade. No fim é sobre dignidade.

– Katinka Bock

O Pivô encerra seu programa anual de 2019 com a exposição “Avalanche”, de Katinka Bock. Esta é a primeira vez que a artista alemã sediada em Paris apresenta suas obras na América do Sul. O projeto comissionado é composto por trabalhos inéditos realizados durante visitas a São Paulo e a partir da relação da artista com o prédio ocupado pelo Pivô, o icônico Edifício Copan. Bock apresentará uma série de esculturas feitas em bronze, cerâmica, argila crua e outros materiais, orgânicos ou inorgânicos, recorrentes em sua produção. A abertura acontece no dia 31 de agosto, das 15 às 19h, com visitação gratuita até 09 de novembro.

Texto Curatorial

Avalanche

Por Fernanda Brenner

Build fire and read
the future in smoke
Carry out ash and
scatter over head
Be sure
not to look back
Attempt
the art of metamorphosis
Paint face
with cinnabar
As a sign
of grief

(W. G. Sebald) 



O livro
Of Cities and Women (Letters to Fawwaz), da artista e escritora libanesa Etel Adnan, é uma compilação de cartas escritas ao mesmo destinatário, Fawwaz, seu editor, a quem ela havia prometido um ensaio sobre o feminismo. Em vez de cumprir a tarefa, a artista escreveu uma série de cartas e as enviou de cidades tão diferentes quanto Berlim, Beirute e Aix-de-Provence. O tom dos textos oscila entre a meditação, a mediação e a resposta imediata às situações vividas por ela e pelas mulheres que encontrou pelo caminho. O conteúdo dos relatos é o resultado não só de um olhar sensível e cosmopolita, mas de um corpo invariavelmente aberto à escuta e à relação, e que acaba por apreender – ou absorver pela pele – a relação intrínseca entre determinadas cidades e seus habitantes (no caso, as mulheres).  

“Ela mora em uma zona em que a humanidade se dissolve na Natureza”, “qual é o fardo das mulheres nas ruas de Marrakesh? Elas carregam o seu status social antes de suas almas”, “eu digo a mim mesma que somos terroristas – não no sentido político ou literal do termo –, mas porque carregamos em nossos corpos, como explosivos, os problemas estruturais de nossos países”, “tudo nela, e em volta dela, era pobreza”. Etel Adnan partiu de sua própria percepção em trânsito para pensar o feminino, optando pela carta ao invés do ensaio, ou, quiçá, pela divagação afetiva ao invés da argumentação crítica. Sua prosa aguda revela sem alarde a complexidade dos acordos psicossociais e políticos que atuam sobre a vida das mulheres em determinadas geografias. 

Essas frases tiradas das cartas a Fawwaz ecoam tanto na obra quanto na metodologia de trabalho de Katinka Bock. Assim como fez Adnan, Bock opta por habitar – e reagir – ao contexto no qual se dá suas exposições. O caso de Avalanche, sua primeira exposição na América do Sul, não foi diferente. 

A primeira visita da artista alemã a São Paulo foi em setembro de 2018. Na ocasião, ela conheceu não só o espaço expositivo do Pivô, mas todas as áreas de serviço e as áreas comuns das zonas comerciais e residenciais do edifício Copan. As texturas, as idiossincrasias do condomínio e as contingências do atual estado de conservação do edifício (a rede de proteção que se solta com o vento, as pastilhas de vidro que se desprendem da fachada…) chamaram mais a sua atenção do que a história ou os feitos técnicos e arquitetônicos de Oscar Niemeyer. Desde a primeira visita, o edifício tornou-se antes um interlocutor do que um objeto de estudo. Bock ajustou seu olhar para a cidade de São Paulo, recolheu amostras, provou frutas frescas e, com auxílio de sua câmera fotográfica analógica, começou a criar imagens que chama de “periferia do trabalho”. Essas fotografias são como uma espécie de diário do processo de trabalho da artista, em que ela reúne suas impressões sem qualquer pretensão narrativa ou de registro cronológico. São pistas, indícios de situações vividas e também sua maneira de tentar entender a estrutura do lugar onde está através de uma procura livre por seus elementos constitutivos e peculiaridades. 

As esculturas e instalações criadas por Katinka Bock são o resultado de encontros e da mediação precisa de processos naturais e induzidos. Nesta exposição, objetos tão variados quanto uma enceradeira emprestada do edifício Copan e duas pacovás compradas no mercado noturno de plantas (Polo norte, polo sul, 2019), fragmentos de arquitetura triturados (Sand (01046-925), 2019) e um radiador de ferro fundido trazido de Buenos Aires (Warm sculpture BA/SP, 2019) se encontram no espaço, vertidos em esculturas, contrapesos e suportes para objetos fundidos em bronze e cerâmicas. As esculturas de Bock carregam sua origem, mas não fazem dela uma bandeira.  estar sempre de passagem. Há em seu trabalho uma desconfiança clara de tudo o que é supostamente estanque e irrevogável, visível nos arranjos entre materiais (quase sempre transitórios ou reversíveis) e também na maneira como ela lida com o próprio espaço expositivo. Bock com frequência “profana” e torna poroso o ambiente formal de exibição de arte por meio de operações simples, como a abertura de uma janela durante o inverno, ou de soluções mais engenhosas, como na instalação Fountain for avalanches (2019), em que ela cria um percurso de tubulações que transportam a água da chuva para dentro do espaço expositivo do Pivô, para depois devolvê-la para a rua através de um furo no vidro da recepção do espaço. A expectativa da chuva forte – ou a frustração da seca – rompe a letargia dos objetos dispostos no espaço. Estes, assim como nós espectadores, são postos à espera de um fenômeno. Nesse deslocamento, Bock transforma também o tempo em matéria espessa. 

Os efeitos dos fenômenos naturais são visíveis no trabalho For your eyes only, parte pelo todo I/II/III (2019). Durante sua segunda estadia na cidade, quatro meses antes da abertura da exposição, a artista estendeu um tecido azul de quase vinte metros na cobertura do edifício Copan. O tecido, marcado pelo sol forte, pela chuva, pela poeira e em parte rasgado pelo forte vento, é o registro do tempo e das variações climáticas a que foi submetido desde então. O recorte e o formato do chassi são escolhas conscientes da artista em resposta às variações tonais criadas pelas circunstâncias. Essa operação, assim como vários outros trabalhos de Bock, desfaz a oposição comum entre sujeito ativo e objeto passivo. 

O trabalho Horizontal word, Copan, (2019), em que Bock lança, de uma das lajes do Copan, uma grande peça de argila crua envolta em um resistente tecido industrial, talvez seja o exemplo mais radical dessa troca de agências. O impacto da queda de quase 20 metros molda terrivelmente a matéria. A energia desprendida para criar essa peça – desde as pessoas que carregaram o volume de argila até as negociações com o condomínio e a logística envolvida no seu translado para o espaço expositivo – impregna a matéria tanto quanto o efeito da gravidade. A escultura é o produto direto de um evento. Sua forma final depende não só do cuidado e da atenção dos que a transportam, mas também da superfície que absorve o impacto da argila ainda úmida. A duração dessa peça é a mesma da exposição, ela será destruída após o término do projeto. Bock faz com que esse pedaço de argila entre em um “estado de arte” para depois voltar a ser matéria orgânica, como um ator que entra e sai de cena, sem perder nunca a dignidade ou a vitalidade de sua presença. 

No Líbano, Etel Adnan escreveu: “nada pode nos salvar dessa tristeza profunda, mas que alívio encontrar um restaurante simples e silencioso, enquanto as bombas ainda não estouram no deserto”. Uma avalanche pode ser causada por fatores diversos, desde uma variação climática brusca até o peso de um esquiador. Prevê-las é quase impossível. Katinka Bock escolheu esse título para uma exposição em um país onde nunca neva, mas que está à beira de um colapso, como tantos outros. Os trabalhos de Bock nos lembram que o espaço – ou a cidade – não é um plano estático ortogonal ao tempo, mas sim um entrelaçamento de trajetórias e fenômenos. O interesse da artista está nas nuances e pontas soltas dessa narrativa em construção, que se dá, não raro, em restaurantes simples e silenciosos, que comportam conversas carregadas de cumplicidade e conexões ainda por fazer.



Artista
Katinka Bock
Entre suas exposições individuais estão “Radio/ Tomorrow’s Sculpture”, IAC (2018); “RADICETERNA”, Manifesta 12 (2018); “Smog”, Meyer Riegger (2017); “Horizontal Alphabet (black)”, MUCEM; “-0-0—0”, Mercer Union (2017). Recebeu os prêmios e bolsas da Fondation d’entreprise Ricard Prize (2012); Museum of Contemporary Art de Detroit (2010) e Cité internationale des Arts (2007). Em outubro de 2019 terá uma exposição individual no Centre Georges Pompidou como parte do importante Prêmio Marcel Duchamp. Sua produção é regularmente discutida em publicações como Le Monde, Vogue, Beaux Arts Magazine, Frieze Magazine, Art Press, ArtForum, Artnet, entre outras.

Esta exposição é sobre lugares onde as pessoas vivem juntas, populações, zonas problemáticas, zonas de contato e ternura, corpos poluídos, perda de controle, momentos em suspensão, motivos para ficar juntos. Cidades são todas diferentes, mas iguais. Paris e São Paulo, quem se importa, humanos e animais, concreto e palavras, vasos e rachaduras, talvez seja apenas uma questão de temperatura e intensidade. No fim é sobre dignidade.

Katinka Bock

 

O Pivô encerra seu programa anual de 2019 com a exposição “Avalanche”, de Katinka Bock. Esta é a primeira vez que a artista alemã sediada em Paris apresenta suas obras na América do Sul. O projeto comissionado é composto por trabalhos inéditos realizados durante visitas a São Paulo e a partir da relação da artista com o prédio ocupado pelo Pivô, o icônico Edifício Copan. Bock apresentará uma série de esculturas feitas em bronze, cerâmica, argila crua e outros materiais, orgânicos ou inorgânicos, recorrentes em sua produção. A abertura acontece no dia 31 de agosto, das 15 às 19h, com visitação gratuita até 09 de novembro.

 

A obra de Bock geralmente responde a contextos geográficos específicos, levando em consideração as características arquitetônicas, urbanas, sociais, climáticas, temporais e espaciais dos ambientes em que trabalha. Suas obras criam um movimento contínuo entre o interior e o exterior dos espaços onde são instaladas, afetando também as interações sociais que informam estes locais. A artista parte da escultura para lidar com relações entre tempo e espaço, história e geografia, natural e artificial, perene e efêmero. Interessada em processos naturais de transformação, Bock produz esculturas e instalações que resultam de eventos que parecem desafiar o material utilizado, gerando uma relação simbiótica entre construções artificiais estáticas e a natureza em constante movimento. A artista costuma fazer uso de materiais naturais, como couro, madeira, pedra, tecido, gesso, cerâmica ou grafite, além de objetos encontrados.

 

Deslocamentos e catástrofes de outra natureza

 

Exposição reagente ao ambiente em que se realiza, “Avalanche” parte de uma série de procedimentos executados no microcosmo do Copan. Estes procedimentos confrontam os materiais de trabalho da artista com o contexto que envolve o prédio. Horizontal Words é talvez o gesto mais radical da mostra. Consiste no lançamento de um grande bloco de argila crua do topo do edifício. Como um corpo que cai, a peça registrará em sua forma final a violência do impacto do material no chão, um tipo de violência que aponta para as complexas condições de vida de uma megalópole disfuncional como São Paulo, onde as injustiças sociais estão impressas nos corpos de um grande número de seus habitantes. Em outra escultura, Bock cria um mecanismo para capturar a água da chuva, usando um funil conectado a canos de cobre que percorrem o espaço. A água atravessa a galeria, caindo primeiro numa pia tomada emprestada de um dos apartamentos e depois ganha a rua novamente através de um furo no assoalho do Pivô. A artista também estendeu 20 metros quadrados de pano azul na laje do edifício. O tecido foi posicionado durante sua visita a São Paulo em abril e, depois de quase quatro meses exposto às intempéries, será colocado em bastidores, tal qual pinturas que reproduzem, com resultados imprevisíveis, as marcas da passagem do tempo. Bock também apresentará uma coleção de cerâmicas feitas na oficina do Centro Universitário Belas Artes e construirá uma estrutura semelhante a uma rede de dormir gigante feita com o recorte de um pedaço da rede de proteção que envolve o prédio. Este tipo de apropriação de elementos da construção civil como ponto de partida para esculturas e instalação também aparece em Sand, em que a artista quebra detritos em partes minúsculas até serem transformados no que ela chama de “areia”.

 

Em sentido literal, uma avalanche se refere a um deslocamento abrupto e massivo de neve. Como figura de linguagem, no entanto, o fenômeno trata de qualquer coisa que arremeta com violência. Se as condições climáticas de um país tropical como o Brasil não permitem a ocorrência de avalanches reais em seu território, catástrofes de outra natureza decorrem da condição política do país. Bock está interessada nas mudanças que estas irrupções abruptas podem provocar.

 

“Avalanche” foi viabilizada por meio de parcerias com o Institut Français e com o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, que cedeu seus ateliês de cerâmica para o uso da artista.

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