Satélite #1
Os dias antes da quebra
Como epílogo de uma história composta por muites artistas e que se estende em outros capítulos, “Os dias antes da quebra” traz para o Pivô Satélite, uma reflexão propositiva sobre como um abalo viral e atomizado na estrutura linear e produtiva do tempo ganhou forma a partir do coronavírus.
Nos guiando como um olho, a exposição sugere um movimento de retorno para o que estava sendo previsto, especulado e denunciado antes da pandemia, por um grupo de artistas racializades e dissidentes com vasta experiência em adiar a iminência das suas próprias quebras.
Questionando os contínuos e descontínuos já em disputa em uma narrativa historiográfica, o título propõe uma recusa aos discursos universalistas que negam o histórico de extrema vulnerabilidade e precariedade que já se fazia norma de forma expressiva na vida de determinados grupos sociais, ao mesmo tempo em que amplia o debate sobre como a inseparabilidade dos marcadores de raça, classe, gênero e sexualidade, que definem as hierarquias de opressão, se escancaram nessa crise sanitária, precarizando ainda mais os acessos aos artistas-trabalhadores que seguem tentando se manter como classe artística.
Desse modo, o projeto apresenta e performa um fazer-coletivo, e reúne um conjunto de ferramentas, rotas de fuga e estratégias de emancipação coletiva que nos levam a refletir sobre 1) os limites dos objetos artísticos e seus processos de encarnação e desencarnação em face à virtualidade; 2) os modos de identificar a atualização do texto moderno colonial através dos sistemas de controle, governança e vigilância em nível atômico, algorítmico e microbiológico; e 3) as contradições existentes nos marcos das poéticas e políticas de exibição considerando tanto as utopias da internet como uma crítica ao avanço do capital tecno-normativo do século XXI.
Nesta exposição como performance, com obras inéditas que encenam ora rotinas virtuais ora se apresentam como eventos, os visitantes-usuários poderão encontrar nos trabalhos des quatro artistas convidades, alta dose de humor, criticidade e ironia, além de processos abertos e experimentais que, ao solicitar a nossa interação, expandem as suas materialidades abraçando o que se produz como diferença e plasticidade no encontro com o mundo virtual.
São eles, os “Para-raios para energias confusas”, esculturas de ferro, cobre e modelagem 3D que surgiram como objetos de proteção durante um sonho da artista Rebeca Carapiá; a urgência em dialogar na linguagem comum que se manifesta através de pixels low-fi, armas máximas da geopolítica local, fundamentadas na pesquisa “Pedagogias do Meme” de biarritzzz; a busca por criar um idioma que não nasça do trauma e da violência através dos experimentos para construção do “Laboratório Internacional de Crioulo” de Diego Araúja; e do interesse pela reunião e ajuntamento de pessoas a partir dos estudos sobre os arrecifes de corais na “Produção de Coralidades” de Raylander Mártis dos Anjos.
Diane Lima é curadora independente, crítica e pesquisadora. Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, seu trabalho consiste em experimentar práticas curatoriais contemporâneas em perspectiva decolonial. Atualmente integra a equipe curatorial da 3ª edição de Frestas – Trienal de Artes do SESC-SP e desde 2018 assina a curadoria do Valongo Festival Internacional da Imagem. Entre seus principais projetos destaca-se a idealização do programa de arte-educação AfroTranscendence; a curadoria entre 2016 e 2017 do programa de exposições Diálogos Ausentes do Itaú Cultural e a participação em 2018 no Grupo de Críticos de Arte do CCSP. Em 2019 foi co-curadora da Residência PlusAfroT e da exposição coletiva Lost Body – displacement as choreography ambos projetos ocorridos em Munique-Alemanha. Jurada de diversas comissões de seleção e premiação, é docente da Especialização em Gestão Cultural do Itaú Cultural e editorialmente trabalha na co-curadoria de duas publicações de arte contemporânea, uma pela Act. e outra pela editora francesa Brook, ambas no prelo.
Satélite #1
Satélite #1
“Os ditos e os não ditos do riso” é o tema da 1ª edição dos Seminários Engraçados, trabalho de Raylander Mártis dos Anjos que propõe um conjunto de conferências gratuitas sobre o riso no contexto brasileiro e internacional. Na obra que costura a sátira com o princípio da sua pesquisa sobre as coralidades, Mártis investiga as temáticas que envolvem o riso, a brincadeira e a comicidade em níveis históricos, estéticos e políticos.
Nos arrancando gargalhadas nervosas, o seminário coloca ainda para jogo dentro da negociação, a própria brincadeira, e nos leva a pensar que as máscaras que usamos nos fazem a todas, esconder o sorriso. Assim que nessa nossa despedida pelo Satélite, a artista efabula com os festejos e seus brincantes, fazendo da cambalhota, episteme para fugir do imperativo moral da destruição.
O seminário terá mediação de Raylander Mártis dos Anjos e da palhaça Fiapo Marrom”.
Ana Raylander Mártis dos Anjos é nascida no cafundó do mundo (1995, MG), atualmente vive em São Paulo. Em sua prática procura estabelecer um diálogo entre a história coletiva e a sua própria história, o que tem chamado de prática em coralidade, envolvendo grupos de pessoas para colaborações e experiências de aquilombamento. Com formação em palhaçaria, bacharelado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) e Arte e Multimédia pela Escola Superior Gallaecia (Portugal), entende sua atuação como um fazer interdisciplinar e transversal*. Vem recorrendo com frequência aos saberes da educação, escrita, performance e brincadeira como forma de compor um maquinário verbal, corporal e ético para discutir suas urgências em projetos de longa duração. Foi contemplada com uma residência na Adelina Instituto (2019) e com o Prêmio de Residência EDP nas Artes, do Instituto Tomie Ohtake (2018), realizou o projeto Coral de Choros, no Programa de Exposições do CCSP (2018), participou de mostras na Galeria Aura, Centro Cultural UFMG, XIX Bienal Internacional de Cerveira e Novas Poéticas. Realizou mostras individuais no Brasil e Espanha. Em 2020 fez o primeiro levantamento de artistas transmasculinos e não-binários nas artes visuais, reunindo 90 nomes.
Artista participante do Pivô Satélite #1.
Como um corpo treinado ao deslocamento, ao lixo temporal, permanece? Como praticar a diáspora com isolamento e distanciamento? A forma como Diego Araúja responde é torcendo a língua de modo a criar com o Laboratório Internacional de Crioulo uma língua não-nascida do trauma e de um contexto de sobrevivência.
Testando os limites dos objetos artísticos e de suas performances no ambiente virtual, o artista propõe para o Pivô Satélite, um jogo, uma instalação narrativo-literária, ensaística e audiovisual que reúne os princípios fundamentais do LIC. Uma vez que reecenamos no presente a impossibilidade do encontro físico, Araúja também sugere um olhar-crioulo para as tensões entre língua e linguagem trazendo contribuições fundamentais para os estudos dos atos performativos e as relações entre memória e ancestralidade.
Diego Araúja é natural de Salvador-BA, Brasil, e produz arte de modo expandido. Suas mídias são literárias, visuais, cênicas e cinematográficas; exercendo funções de diretor, dramaturgo, roteirista e artista visual. Desde 2013 dirige o processo Estética Para um Não-Tempo, com o objetivo de instaurar um tempo qualitativo que possibilite a produção de memórias afro-diaspóricas emancipadas; o que chama de Fundamentos Futuros. Neste processo, experimenta a criação de oríkì’s (literatura oral de origem yorùbá), o que gerou a obra QUASEILHAS (2018). Em 2017 funda com a artista Laís Machado, a Plataforma ÀRÀKÁ. Em 2018, concebeu uma performance coreográfica para videoinstalação A Marvellous Entanglement, do artista britânico Isaac Julien. No mesmo ano, faz residência artística na Atlantic Center For The Arts (Flórida-EUA), onde cria a videoinstalação Oríkì das Araújas, experimentando vibrações sonoras sintéticas nos oríkì’s. Em 2020, faz residência artística na SAVVY Contemporary (Berlin-GER). Atualmente, Araúja desenvolve um trabalho cinematográfico autoral, ao passo que organiza a fundação do Laboratório Internacional de Crioulo.
Artista participante do Pivô Satellite #1.
Da sua pesquisa Pedagogias do Meme, a artista transmídia biarritzzz lança no Satélite o seu primeiro disco EU NÃO SOU AFROFUTURISTA, um álbum sonoro-visual web-specific. Remixando cultura pop, videoarte, política de memes, estéticas de videogame e poesia com as novas mídias e tecnologias ancestrais, a obra borra as fronteiras entre as linguagens, investigando suas intersecções e criptografias como ferramentas de controle e visibilidade.
Em um trabalho onde ironia é coisa séria, ao recusar no seu título a categoria de afrofuturista, a artista baseada em Recife encena uma estratégia de fuga ampliando os debates sobre políticas de identidade e seus processos de captura na esfera do tecno-capital. EU NÃO SOU AFROFUTURISTA conta com diversas participações como a de Henrique Falcão, Novíssimo Edgar, Denise Nuvem, Mun Há, Anti Ribeiro e Deize Tigrona.
biarritzzz (1994, Fortaleza) é uma artista transmídia antidisciplinar que investiga as interseções entre linguagens, códigos e mídias. Acredita no amadorismo e na magia como contra narrativas importantes para viver a atual disputa cosmológica. A partir de uma visão crítica sobre digitalidade e virtualidade, biarritzzz discute cultura pop, baixa resolução, pedagogias do meme, políticas do erro e do improviso, estéticas de videogame e internet, com poesia e imagens em movimento. Possui importantes trabalhos em videoarte e uma longa pesquisa em GIF art e live visuals, performance e videomapping, transitando entre as contradições dos cubos brancos e das caixas pretas da noite dissidente do nordeste brasileiro. Faz parte de coleções como Art Base (Rhizome/New Museum), Instituto Moreira Salles (IMS), MIS SP, KADIST Foundation, SPAMM.fr e HIPOCAMPO.art. Já expôs na plataforma Satélite (Pivô Arte e Pesquisa), Galeria A.I.R, Centro Cultural São Paulo, The Wrong Biennale, FILE, The Shed NY, Städtische Galerie Bremen, MAC Goiás, Goethe Institut Porto Alegre entre outros. Faz parte do corpo de artistas dos projetos Unfinished Camp e Amplify D.A.I. (Digital Arts Initiative). Atualmente faz parte do programa Ventre na Galeria Hoa.
Artista participante do Pivô Satélite #1
A artista participou do programa de vídeo da mostra ‘de montanhas submarinas o fogo faz ilhas’, com curadoria de Yina Jiménez Suriel, em 2022.
A artista de Salvador Rebeca Carapiá apresenta a série inédita de trabalhos “Para-raios para energias confusas”, instalação composta por esculturas, vídeo e arquivo PDF que, relacionando modelagem 3D, ferro e cobre, simula em sua performance um guia de montagem que se instala no Pivô Satélite como estratégia de emancipação coletiva e espiritualidade.
Explorando os limites do objeto físico, Carapiá insere certa dose de humor e ironia para expor as contradições presentes entre a materialidade, a virtualidade e suas opacidades ao propor, através do “Manual” e “Tutorial de Instalação” da obra, uma interação com um público que faz do “Para-raio para energias confusas” uma performance em si mesmo.
Rebeca Carapiá nasceu na cidade baixa, Salvador-Bahia. Artista visual formada pela Universidade Federal da Bahia, se interessa pelas relações produzidas entre a linguagem, o conflito, o corpo e o território. A partir da experiência e cotidiano no bairro do Uruguai, espaço que a constitui como artista, vem criando e organizando um conjunto de práticas e reflexões através de diferentes plataformas de exibição, formação e experimentação artística, visíveis e invisíveis ao circuito da arte contemporânea. A artista cria através de esculturas, desenhos, instalações, gravuras, textos e objetos uma cosmologia em torno dos conflitos das normas da linguagem e do corpo, além de ampliar um debate geopolítico que envolve memória, economias da precariedade, tecnologias ancestrais, dissidências sexuais e de gênero e as relações de poder entre o discurso e a palavra. Performando a desconstrução das geografias dos femininos, recorre à experiência com serralheria e materialidades como o cobre e o ferro para confrontar os discursos hegemônicos da arte e da política.
Artista participante Pivô Satélite 2020 #1

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