Satélite #5
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NOSUNE
O espírito está sonhando
Conmoción total en mis células (Choque total em minhas células)
Só recentemente nós, os “humanos modernos”, começamos a tomar consciência de que não somos o resultado de uma evolução isolada ou excepcional, mas a consequência de uma longa história de interações e relações fortuitas, constituídas por reações químicas orgânicas e inorgânicas. Assim, e embora para muites de nós seja difícil admitir completamente, somos criaturas vulneráveis e interdependentes, que temos escapes e limites confusos em relação ao mundo que nos rodeia.
Nossos corpos realmente nos pertencem? Eu tenho um corpo ou sou um corpo? Após dois anos de pandemia, nossa imbricação com o mundo dos vivos – compreendido em sentido amplo e não antropocêntrico – tornou-se evidente, revelando que nos faltam palavras e imagens que permitam representar a porosidade que nos constitui e nos atravessa como habitantes deste planeta.
Apostando no poder da arte para moldar dimensões que estão além das ferramentas para sentir/pensar, herdadas da modernidade, Conmoción total en mis células busca expandir nossa compreensão acerca das fronteiras entre os seres vivos – humanos e não humanos – e desafiar as dicotomias entre o pessoal e o social, a vida e a morte. O projeto é dividido em quatro partes, cada uma das quais colocando em diálogo dois ou três artistas em cujas obras os corpos são instáveis, mudam, se movimentam entre espécies, a saúde e a patologia, o interior e o exterior. Desta forma, sentindo, traduzindo e antecipando processos profundos de afetação entre o micro e o macro, suas propostas artísticas nos convocam a prestar atenção nessas outras possibilidades de ser que se abrem ao apagar certezas sobre o tipo de criaturas que somos como espécie. O resultado é uma exposição colaborativa que funciona como um organismo em constante crescimento, que incita tanto o atrito quanto a contaminação dos universos criativos des artistas convidades.
Curadoria: Bisagra
Artistas:
Esteban Igartua + Genietta Varsi
Gianfranco Piazini + Diego Vizacarra
Sylvia Fernández + Rodrigo Andreoli
Rita Ponce de León + Yaxkin Melchy + Shinnosuke Niiro
Satélite #5
Satélite #5
A primeira parte de Conmoción total en mi células propõe um diálogo entre os “desenhos de massas orgânicas” do artista Esteban Igartua e as “partituras respiratórias” da artista Genietta Varsi. O processo de trabalho foi baseado na dinâmica de estímulo e resposta e de ida e volta. O resultado é uma justaposição de imagem e som que torna complexas as categorias dicotômicas – tais como interior/exterior e macro/micro – que atravessam os corpos.
Esteban: As partituras respiratórias de Genietta me fazem pensar em bocas e narizes inalando e soltando ar. Também na ideia de um corpo ou massa que se enche e se esvazia, ou uma forma de broto ou flor que se abre e fecha em diferentes velocidades. Há respirações mais longas e profundas que me fazem pensar em espaços de ar mais macios e amplos, e outras mais curtas e repetitivas que evocam pequenos orifícios ou picadas. Eles também me transmitem, em certos casos, uma sensação de movimento, como uma marcha em direção a algo.
Genietta: Meu processo foi baseado no uso dos desenhos de Esteban como partituras. Percebê-los como espaços profundos que carregam uma temporalidade e que marcam sequências, sons e silêncios. As sequências respiratórias que propus percorrem os espaços de seus desenhos, entram, saem, o contornam. Eu segui os ritmos que eles propõem com minha inalação e exalação. Seus desenhos vibram, pulsam, respiram e giram; são materialmente estáticos, mas têm um movimento vivo e orgânico. Cada desenho bate como uma massa microscópica e também como uma massa do tamanho do planeta. Cada poro sopra. Cada poro explode. Cada poro se desdobra para fora.
Esteban Igartua (Lima, Peru,1974) faz pinturas e desenhos que retratam paisagens e cenas que ressaltam o aspecto orgânico da vida humana. A fronteira entre o ser humano e o ambiente circundante é indefinida e, em alguns casos, indistinguível.
Ele estudou pintura na Pontificia Universidad Católica del Peru, e depois na Slade School of Arts e Byam Shaw, Londres. Em 2003, seu trabalho foi selecionado para a Bloomberg New Contemporaries, que naquele ano teve lugar em Manchester e Londres.
Suas últimas exposições individuais incluem: “Coliflor”, Proyecto Amil, Lima (2018), “Excursión”, Garúa, Lima (2015) e “Campo Ocupado”, Revolver Galeria, Lima (2012). Seu trabalho tem sido parte de exposições coletivas no Peru, Reino Unido, Brasil, Espanha, Albânia e Colômbia, e tem sido referenciado em publicações como “77 Contemporary Peruvian Artists” (2017), editado pelo Museu Mario Testino – MATE e New Contemporaries (2003). Em 2019, o Proyecto Amil publicou “Coliflor”, reunindo as obras que faziam parte da exposição de mesmo nome, juntamente com textos de escritores peruanos contemporâneos. Atualmente, vive e trabalha em Bristol, Reino Unido.
Genietta Varsi (Lima, Peru, 1991) investiga, de um ponto de vista escultórico, como a matéria, forma e transforma o ambiente com seu comportamento e vice-versa. Varsi trabalha com metodologias e ferramentas multidisciplinares combinando arte, medicina, bioquímica, ecologia, mecânica e antropologia para pensar e repensar o corpo no cotidiano. Os meios com os quais ela trabalha incluem escultura, desenho, vídeo, som, ações, oficinas e publicações impressas.
A artista realiza mestrado em Cultura Visual, Arte Contemporânea e Curadoria na Universidade do Aalto, (Finlândia). Ela estudou escultura na Pontifícia Universidade Católica do Peru (Lima), e participou das residências artísticas Uberbau_House e Residencia Artística FAAP em São Paulo, Brasil, no Museo de Arte Contemporáneo-Quinta Normal em Santiago do Chile e ganhou a bolsa Artus para a Fundação Delfina em Londres, Inglaterra. Suas últimas exposições individuais incluem: “Pumping Roots”, Galeria 35m2, Praga, “Pneumatic Driving” Ginsberg, Lima (2021); “El dedo pulgar es el que ejecuta”, Ginsberg, Lima (2018). Varsi tem apresentado seus projetos em exposições coletivas e festivais de cinema na Europa e América do Sul.
Artistas participantes do Pivô Satélite #5
A segunda parte de “Conmoción total en mis células” mostra o trabalho de Gianfranco Piazzini e Diego Vizcarra. Eles continuam com a investigação do que está fora e dentro do corpo humano, quais são seus limites e como manipulamos esses limites. O trabalho dos dois artistas é composto por processos simbólicos nos quais o corpo é diluído e o protagonismo recai sobre dinâmicas que nos fazem lembrar dele, ou do que resta dele. Falam também sobre suas fronteiras e como reagem ao encontro entre dois corpos.
O som com o qual esta segunda exposição abre é um conjunto de gravações que Piazzini faz de seu próprio corpo, como o som do seu estômago e do batimento cardíaco, que, fora do contexto e sobrepostos, servem como paisagem ou trilha sonora abstrata para visitar as diferentes peças aqui expostas.
As animações de Diego Vizcarra mostram a parede de sua casa que fica muito perto do mar, que a brisa devora fazendo com que perca constantemente as camadas de tinta, como desprendimentos de pele. Atrás destas paredes esconde-se outra pele, que por sua vez é uma nova fronteira.
Em seu trabalho conjunto eles criam uma animação de uma traça passando pelas páginas de um livro, alimentando-se delas, desenhando ou seguindo um caminho através do vazio.
Diego Vizcarra: A tensão de um limite define formas. Todo limite define formas? Formas que lutam por sua autodeterminação.
A fragilidade de tudo o que é determinado: a parede se descasca, a pele fica irritada, ferida, sangra e, é claro, muda.
Sabemos da mudança constante, sabemos da rigidez da lei da natureza. Mas lutamos teimosamente contra isso, com os corpos.
Mesmo que algo se perca no caminho para sempre, as resoluções da tensão são as próximas formas.
Gianfranco Piazzini: O ponto de partida foi a definição dos antípodas do corpo. Por um lado, para reconhecer uma entidade fechada e equivocada; por outro, a afetação causada por sua exposição ao exterior, sua condição de fronteira incompleta, de superfície e moradia composta de totalidade e vazio. Superfícies que dão lugar a outros corpos, simulacros que se adaptam e se relacionam mutuamente.
Toda interação é uma troca que deixa para trás a memória material em escombros de uma anatomia. Cada choque deixa para trás a impressão do outro, uma câmera obscura que se torna uma caixa preta. E é o outro o contorno contido que de dentro vê como o dedo se introduz na ferida.
INDICAMOS A UTILIZAÇÃO DE FONES DE OUVIDO
Gianfranco Piazzini Alcántara (Lima, Peru,1984) estudou na Faculdade de Arte da Pontifícia Universidade Católica do Peru. Atualmente trabalha com diferentes mídias, principalmente vídeo, animação, desenho e som.
Seu trabalho aborda a representação do vazio, a indefinição dos limites e a abstração que permanece quando os limites da língua, da cultura e da razão se expandem. Ele explora a identidade através dos limites do corpo, pelo transplante de conceitos e pela mutabilidade de definições, que são condicionadas pelo tempo e memória. Gianfranco também desenvolve projetos sonoros e editoriais.
Diego Vizcarra Soberón (Lima, Peru, 1981) é cineasta de animação, estudou na Escola de Cinema de Lima, Peru e na Escola de Trazos em Madrid, Espanha. Ele parte do surrealismo, da psicodelia, e da poesia para indagar, num espírito crítico, preocupações, reflexões, sonhos ou visões que questionam a nossa condição contemporânea. O artista se interessa pelo estatuto da imagem ou a relação – tanto pessoal como social – com o ambiente natural.
O seu trabalho tem sido exibido em festivais no Peru, Cuba, México, Porto Rico, Brasil, Argentina e Espanha.
Artistas participantes do Pivô Satélite #5
Sylvia Fernández e Rodrigo Andreolli estão em fusos horários diferentes e opostos, mas pensam e sentem o tempo de forma semelhante. Se jogam no tempo como uma pena carregada pelo vento, como alguém nadando no mar ao cair da noite, como uma gota de água que encontra um lugar para se dissolver. Durante o processo de realização destes trabalhos, eles compartilharam momentos de liberdade e confiança, criando um espaço para uma experimentação dialógica.
Habitaram uma pausa prolongada, atentos às vibrações do visível e do invisível. Coincidiram na escuta profunda, prestando atenção aos sinais que desafiam os limites espaciais e temporais que estruturam o cotidiano urbano e moderno. Exploraram como diluir as bordas do humano, invocando relações porosas que conectam o mais íntimo com o mais universal. Sobre este acompanhamento mútuo, eles nos dizem:
Nosso encontro está mediado pela compreensão dos corpos como um conjunto de existências que se organizam em certas formas, para logo se metamorfosearem em outras. Corpos como extensões, uns dos outros, por meio dos meios. O exercício da contemplação do movimento incessante, aquele que coloca tudo em movimento entre a vida e a morte o tempo inteiro. Os tempos que nunca se cruzam, que se sobrepõem. O que nos une? E mais, quem se une? Você e eu, além das projeções entre luz e sombra, contrastes e cores, quem somos nós? Nosso encontro se da no ponto inexato e intangível entre o dia e a noite, e nos tocamos através dos primeiros raios de sol que dissolvem o horizonte pela manhã, ou através dos últimos, quando escapam ao cair da noite. Nossa tentativa de propor sensações em imagens, se perdem no mar de cada uma, mas mesmo ali, neste espaço tão próprio que se torna desconhecido na escuridão, continuamos caminhando, confiando que entre o não saber e o perceber, nossas mãos se tocam e dançam o que não pode ser dito.
Afetamos um ao outro, além de tudo. Para esta conmoción total, partimos de práticas de encontro telepático e de meditação. Começamos sem definir os destinos exatos das formas em produção, procuramos experimentar uma conexão empática na distância, deixando que a intuição e o ambiente ao redor nos trouxessem os motivos e as imagens. Por meio de um trabalho de expansão sensorial, buscamos as confluências de nossos olhares e nossas escutas, colocamos nossos corpos e intenções em uma conversa aberta que caminha por diferentes meios, mas em companhia. Contemplando o processo de cada um a partir de um estado afetivo, iniciamos um diálogo entre paisagens, formas, cores e tempos, misturando pinturas, vídeo, escrita e dança. Agora convidamos a quem olha, quem chega aqui, a entrar nesta paisagem que estamos mantendo juntas.
Sylvia Fernández (Lima, 1978) estudou Belas Artes na Escola Superior de Arte Corriente Alterna, participou de várias exposições coletivas e individuais em Lima e no exterior. Estas incluem a exposição individual ‘Volvamos’ com curadoria de Nicolás Gómez Echeverri (Galería del Paseo, 2021), ‘Negar el desierto’ (Museo de Arte Contemporáneo MAC Lima, 2020), ‘Vamos Desapareciendo’ (Salón ACME, 2020) e ‘Conversaciones con Carmen”, exposição com curadoria de Jorge Villacorta (ICPNA Miraflores, 2019). Participou de diferentes concursos, sendo semifinalista no BP Portrait Award (Londres, 2017) e finalista na Fundación Focus Abengoa (Espanha, 2005), ‘Pasaporte para un Artista’ (Lima, 2004), entre outros. Além disso, ela participou de feiras de arte como Arco (Espanha) e Feira de Arte de Colônia (Alemanha).
Rodrigo Andreolli (Rayo Wasser) transita pelas artes, exercitando o corpo como elemento de ativação sensível das camadas visíveis e invisíveis da matéria pública. Atua na elaboração de estruturas de produção para projetos de arte multidisciplinares.
Associado à companhia Teatro Oficina Uzyna Uzona (2006- São Paulo), foi artista residente e produtor da Residência para dança LOTE (2011-2014, São Paulo) e artista estrutural do projeto de pesquisa Terreyro Coreográfico (2014-2017, São Paulo), também fez parte da Residência Capacete em Atenas (2017), Mestre em Coreografia e Performance pelo Institute for Applied Theatre Studies (ATW), JLU, Gießen, Alemanha (2018-2022), Pesquisador Afiliado no ACT, Arts, Culture and Technology Program no MIT – Massachusetts Institute of Technology (2020), e Danceweb Scholarship Program 2015 – Festival de Dança de Viena Impulstanz. Alguns dos trabalhos mais recentes são “Matter Mythologies” (2019, Atenas, Grécia), com o apoio dos Creative Europe Mobility Funds – IPortunus; “Zu Verschenken” (2021, Giessen/ Frankfurt, Alemanha); “Vibrações do Ignoto” (2022, Rio de Janeiro, Brasil), performance e instalação em realidade mixada, parte da Conferência dos Museus, comissionada pelo Goethe-Institut Rio de Janeiro, em parceria com o Museu Nacional e Museu de Arte do Rio.
Artistas participantes do Pivô Satélite #5
Guiados pela pergunta: “O que é uma vida com sentido?”, Rita Ponce de León – em colaboração com Shinnosuke Niiro e Yaxkin Melchy – deram vida ao projeto “O espírito sonhado”.
A pergunta simples, mas profunda, levou Niiro e Melchy a embarcarem em uma viagem pelo Japão em busca de respostas das pessoas que encontraram ao longo do caminho, coletando frases e palavras que posteriormente desencadearam reflexões entre eles. De fato, ao longo de sua viagem recolheram mais de 400 palavras e pequenas frases que, quando colocadas lado a lado se reforçavam e geravam orações que poderiam esboçar uma possível resposta.
A versão física deste projeto foi apresentada recentemente na Trienal de Aichi em Nagoya, Japão, e consistia em 14 xilofones feitos de teclas de diferentes tamanhos e qualidades de madeira, gravadas com as palavras “achadas” nesta viagem. Desta forma, os xilofones funcionavam como um dispositivo gerador de poesia, com o qual o público podia interagir reposicionando as teclas para que assumissem o significado que queriam dar-lhes. Estas frases foram então ativadas quando tocadas, revelando o mistério de como esta mensagem soaria.
A versão de “O espírito está sonhando”, que podemos ver em Conmoción total en mis células na Pivô Satélite, é um vídeo baseado em uma seleção de frases feita pela artista Rita Ponce de León que, originalmente compiladas, se focalizam em diferentes sensações e/ou experiências corporais, nas possibilidades e limites da linguagem para expressá-las e no papel da poesia. A importância desta versão reside na possibilidade de trazer estas frases para o sul para adotar um novo idioma: o português. Esta tradução de significados dá um novo fôlego ao projeto, que continuará a ser alimentado pelas necessidades e desafios que surgem ao abordar a questão acerca do que seria uma vida com sentido.

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